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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O velho Dema e o Capitão Nemo

CAPA_NEMO

Por que diabos se escreve um gibi?

Bem... Cada um tem sua verdade.

Já ouvi opiniões das mais diversas, das sublimes e artísticas até aquelas mais escrotas

CA07Eu só posso responder por mim: escrevo por causa de um danado de um Capitão América nº 7, publicado pela Editora Abril em 1979.

Aquilo desgraçou irremediavelmente minha vida.

Trepado no pé de ameixa da minha bisavó, tinha uma visão privilegiada de toda rua. Naquela tarde de meus sete anos, vi meu pai despontar na esquina com sua indefectível pasta preta.

Naquele tempo eu voava como o vento...

Ainda hoje lembro-me daquele abraço e de seu cheiro, uma mistura de colônia barata e Óleo Singer, fruto de sua profissão como técnico de máquinas de escrever na Olivetti.

E nunca me esquecerei do momento em que ele, ali mesmo, no meio da rua, abriu sua pasta e me deu aquela edição do Capitão América.

Naquela tarde sentamos no chão do quintal e lemos juntos nossos gibis.

Ele foi de Tex, o seu preferido, enquanto eu acabava de descobrir um maravilhoso mundo repleto de seres super poderosos.

Naquela época eu jamais teria tal discernimento, mas hoje entendo que aquela tarde foi um daqueles momentos que definem sua vida para sempre.

Mas aquilo foi muito antes da doença que consumiria sua inteligência ímpar e o levaria à morte 15 anos depois.
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Quando o editor Wellington Srbek me convidou para escrever um dos volumes de As Aventuras do Capitão Nemo, aceitei na hora.

Seria meu terceiro trabalho pela Editora Nemo, mas ao contrário dos dois anteriores – ambos adaptações de peças Shakespeareanas – este seria uma história original baseada no universo criado por Julio Verne em 20.000 Léguas Submarinas.

O desenhista seria novamente o Will (de quem sou fã incondicional), que já havia adaptado a obra original ao lado do roteirista João Marcos e produzido o primeiro volume da coleção (As Aventuras do Capitão Nemo: Profundezas) junto com o Daniel Esteves.

Definitivamente, recusar não era uma opção.

O que não queria dizer que seria fácil…
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Um dos maiores problemas em se produzir quadrinhos no Brasil – e acredito que em qualquer outro país que não fale japonês ou francês – é a concorrência desleal com a indústria norte americana.

Como alguém em sã consciência entra numa briga dessas?

Ainda mais fazendo uma história baseada na obra de um cara que morreu há mais de cem anos…

E daí eu olho para meu sobrinho e o vejo escolhendo uma action figure do Ben 10, o tema de seu aniversário é o filme dos Vingadores e seu amiguinho aparece na festa vestido de Homem Aranha

Bilhões de dólares de investimento fazem um moleque de nove anos (que não faz a menor idéia de quem é Marvel ou DC e muito menos que elas pertencem a Disney e a Warner) acreditar que aquilo é mágico.

E não discordo. Trepado naquele pé de ameixa li centenas de gibis de super heróis. É um mundo mágico e fascinante.

E está em todo lugar: nas mochilas, nos brinquedos, nas roupas, nos sapatos, nos doces, na TV, no cinema, nos desenhos…

E até nos gibis.

Como competir com isso?

Simples: não há competição.

Nessa história toda alguém simplesmente bateu com a cabeça na parede. Ou foi o editor ou foi o roteirista junto com o desenhista.

Ou os três.
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Não estamos simplesmente falando de um escritor qualquer. Estamos falando de Julio Verne, o cara que praticamente inventou a Ficção Científica!

O cinema ainda engatinhava quando Méliès encantou o mundo com seu Le Voyage dans la Lune. Um ilusionista produzia no alvorecer do séc. XX, com uma série de trucagens e efeitos até então impensáveis, um dos filmes mais emblemáticos da história do cinema. E adivinhem na obra de quem ele se inspirou?
 
meliesVerne lançou em seus livros as bases do entretenimento moderno. Do já citado Méliès a Spielberg, de Walt Disney (que também o adaptou para o cinema) a George Lucas e seu icônico Guerra nas Estrelas, ninguém nos últimos 100 anos escapou da influência do escritor francês

E aqueles que não beberam diretamente da fonte, o fizeram daqueles que beberam.

De uma maneira ou de outra, tudo o que tem monstros, cientistas malucos, astronautas e alienígenas passa de alguma forma pela obra de Verne.

E daí voltamos para aquela pergunta: dá pra competir com uma indústria onde cada produto possui bilhões de dólares de investimento, seja um gibi ou o novo blockbuster de verão? Onde tudo é pensado para vender aos milhares, milhões de unidades?

Não dá. Esquece!

Não veremos o Capitão Nemo estampado nas lancheiras ou virando bonequinho da Gulliver.

Mas dá pra fazer um baita gibi… 
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Em As Aventuras do Capitão Nemo: O Navio Fantasma! tudo o que eu quis foi fazer um gibi com cara de gibi.

Uma história como aquelas boas aventuras do Scooby Doo, onde um mistério fantasmagórico te leva a acreditar que os mocinhos vão realmente se ferrar até que uma pista, que aparentemente não revelava nada, salva o dia de nossos heróis.

Um gibi com gosto de infância, que seja capaz de fazer o Vinícius – aquele carinha simpático de nove anos que se amarra no Ben 10 e escolhe o pedaço do bolo que tem estampado a cabeça do Hulk – se desligar de um “universo” planejado minuciosamente para agarrá-lo pelos próximos 50 anos e entrar em outro mundo: um lugar mágico que só depende da cabeça dele pra existir.

Quis fazer um gibi onde os pais, talvez escondidos dos filhos e de suas esposas, lembrem-se do que é jogar uma tampinha de garrafa na correnteza de uma sarjeta num dia chuvoso e acompanhá-la durante toda a rua, até que o inevitável bueiro a engula. Uma história que possa, mesmo que por um breve instante, lembrar ao adulto que um dia ele foi o Capitão de um navio de tampinha de guaraná numa sarjeta.

Pretensão?

Ora! Com mil diabos!

Depois daquelas bordoadas que o Hulk deu no Loki, a única munição que me restou foi tentar escrever um bom gibi!

E por que mesmo se escreve um gibi?

Bem… Cada um tem a sua verdade.

A minha ainda está trepada naquele pé de ameixa, na esperança que meu pai, o velho Dema, vire a esquina e tenha naquela misteriosa maleta preta algo que mudará irremediavelmente a minha vida.
pai

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

É a senhora sua vó!

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Dona Zabé sempre preparou guloseimas.

A minha preferida era rosquinha de pinga. Comia aos borbotões. Sei lá se teve alguma relação com o gosto que tive por porres na adolescência, mas o fato é que adorava aquela cachaça, digo, rosquinhas…

tira02Dona Isabel tem 86 anos, é lúcida (a não ser quando confunde os nomes dos netos), religiosa, mora na praia e caminha todos os dias. Dona Zabé é minha vó, mas não é muito diferente da sua.

Mas Dona Zabé além de minha vó, é com certeza – junto com todas as outras avós do mundo – a vó do Jean.

Só pode ser.

Tá bom, não lembro dele de visita lá em casa. Nunca o vi comer aqueles deliciosos bolos regados a leite de coco e também nunca dividi com ele a raspa da tigela. Nem a colher de pau lambuzada de calda de açúcar endurecida eu lembro de ter dado pra ele.

Ele pode até não ser o meu primo, mas o cara é neto da minha vó, não tenho dúvidas. Da sua também, não se engane. Esse cartunista de 39 anos roubou todas as avós do mundo só pra ele!

De que outra maneira ele saberia que a minha vó conta os remédios como quem escolhe arroz? Ou então, como raios ele poderia saber que não importa quem tenha cometido o pecado, é minha vó quem vai pagar a promessa?

Só sendo neto dela.

tira03Pérai… Tá lembrando da sua vó, né?

O que ela faz? Ouve missa pelo rádio? É fiel ao seu avô que já morreu há vinte anos? Tem um santo na penteadeira para cada ocasião?

Sabia!

O Jean é neto da sua vó também!

Não acredita? Eu posso provar…

Tá tudo documentado. Ele até tentou esconder: disfarçou aqui, mudou os móveis de lugar ali, trocou a foto do retrato…

Mas não adianta, achei a Dona Zabé escondida nas páginas de (Barba Negra – 128 páginas – R$ 12,90).

Jean Galvão é um dos cartunistas mais talentosos do país e o livro reúne cerca de 120 tiras da personagem que ele criou em 2006.

Seu traço singelo, divertido e preciso é visto a todo momento nas mais diversas publicações ou campanhas publicitárias.

Mas não é a sua enorme habilidade técnica que faz desse uma coletânea de tiras memorável.

Jean, matreiro, conseguiu um feito sensacional, digno apenas dos grandes cartunistas: captou a essência de uma personagem facilmente identificável na história pessoal da maioria de seus leitores.

Ler é como revisitar algumas de nossas melhores lembranças e enxergar o humor e docilidade que só uma avó pode ter. As situações representadas em suas tiras vão muito além das piadas sobre senilidade, superproteção, religiosidade ou viuvez, pois atingem em cheio sentimentos ligados a nossa mais tenra idade.

Ler vó tem sabor de rosquinha de pinga, ou de bolo de fubá, se preferir; ou ainda de assistir uma novela com aquela delícia de voz ao seu lado narrando cada uma das situações:

- Olha lá, agora ele mata ela!

- Não entra aí não sua boba!

- Bem feito, ele mereceu! Quem mandou trair ela com a Emengarda? Toma papudo!

Talvez isso explique o sucesso dessa personagem.

Ou talvez ele realmente tenha roubado a Dona Zabé, a Dona Maria, a Dona Amélia…

Jean

Jean Galvão – provavelmente se disfarçando de Lillo para roubar a Dona Zabé.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Não queria? Agora aguenta… (ou como eu acabei virando um roteirista - parte final)

imagesSe algum dia você ouvir um ator dizendo “Shakespeare? Nunca fiz porque não gosto…” , não acredite!

Isso é uma mentira deslavada e o sujeito só disse isso porque 1) não se sente preparado e disfarça sua insegurança usando esse argumento, 2) nunca leu Shakespeare ou 3) não é um ator.

Tudo – absolutamente tudo – que possua dramaturgia sofre a influência desse cara. O teatro depois dele, o cinema, os seriados, as telenovelas, os gibis (sim, os gibis), ninguém escapou da poderosa herança dramática da obra desse inglês.

Nunca ouviu falar de Shakespeare? Engano seu.

Nos amores impossíveis das comédias românticas, nos heróis e em seus nobres atos, na sordidez e na mesquinharia dos avarentos, em  vilões inesquecíveis como Hannibal Lecter ou Odete Roitman e em mais um sem número de personagens e histórias que você ouviu, leu ou assistiu, ouvem-se ecos de figuras shakespereanas como Romeu e Julieta, Otelo, Ricardo III ou Hamlet.

O motivo é simples: o bardo inglês captou em sua dramaturgia as mais sutis nuances da personalidade humana. Suas histórias refletem a história da humanidade, não apenas a anterior à época em que viveu (fim do século XVI e início do XVII), mas também de toda a história futura.

Shakespeare foi um dos poucos na história da humanidade que entendeu (ou ao menos soube retratar) o ser humano em toda sua plenitude.

E entendendo o ser humano, criou histórias que nunca envelhecerão e continuarão a ser adaptadas daqui a 500 anos, com o mesmo vigor.

Então imaginem o meu mais puro pavor ao ler aquelas linhas:

“Os álbuns que gostaríamos de encomendar a você são adaptações de obras de William Shakespeare(…)”

É muita responsabilidade.

Eu poderia ter dito não.

Não seria difícil, quer ver?

“Wellington, olha, agradeço a oportunidade mas é o seguinte: eu não tenho experiência alguma em roteiro para quadrinhos, não acho uma boa idéia, vamos aproveitar que tá tudo no começo e encerrar por aqui, você procura outro cara já com experiência e eu continuo escrevendo no blog.”

Poderia mas não o fiz.

O ator dentro de mim jamais deixaria de aceitar tal desafio.

luis-melo1

Luiz Melo como Macbeth em Trono de sangue, direção de Antunes Filho. Ensaio fotográfico de Emidio Luisi

Mas como diabos você adapta alguém que já foi encenado milhares de vezes, adaptado para todas as mídias existentes, estudado, dissecado e reinventado?

Srbek nesse caso me fez um enorme favor ao revelar que a linha editorial da coleção se pautaria pela fidelidade aos textos originais, sendo permitida apenas a adaptação da linguagem aos nossos tempos, obedecendo – claro – as limitações e liberdades narrativas próprias dos quadrinhos.

Adaptar uma obra clássica para uma outra mídia que não a sua original não é uma tarefa fácil. Cuidados devem ser tomados para tornar a história inteligível sem descaracterizá-la.

Pegar um texto de teatro e encená-lo é um processo natural, mas transformá-lo numa história em quadrinhos é, para se dizer o mínimo, ousado. Fazer isso com Shakespeare é simplesmente uma tarefa insana.

Por mais influência que o bardo inglês exerça sobre as mais diversas formas de entretenimento, o que eu faria ali seria transpor uma história imortal para um gibi que seria lido por uma imensa maioria que nunca teve contato com o texto original.

Em outras palavras, eu, o Wanderson, o Wellington e a Nemo seríamos os responsáveis por apresentar um texto original de Shakespeare pra uma galera que talvez nunca tenha ouvido falar no nome do bardo.

É claro que paranóico do jeito que sou, quase enlouqueci. Não com os prazos, esses geraram o estresse normal que geralmente compromissos com data marcada geram e foram cumpridos à risca, tampouco com o processo de aprovação do roteiro – e em relação a isso fica aqui meu agradecimento pessoal ao Wellington, que pacientemente sugeriu pequenas alterações e adaptações de ordem narrativa que, confesso, só aumentaram a qualidade do álbum – o que, aliás, é o trabalho de um editor.

O que pegou mesmo foi o peso da responsabilidade em – numa única tacada – interpretar todos os personagens de uma peça de Shakespeare!

Mas não vou contar agora a doideira que foi adaptar Shakespeare. Guardarei isso para a época do lançamento, já que é a única coisa que posso fazer, visto que seria muito deselegante (e pretensioso) resenhar o próprio gibi…

E quanto mais perto chega da data do lançamento (que ocorrerá em Belo Horizonte, no FIQ, à partir de 09/11) mais penso na aventura e loucura que foram aquelas semanas iniciais.

Nos vemos então no FIQ!

Se estou com medo?

Caras, eu estou apavorado…

letras-novo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Como assim eu vou fazer um gibi? (ou como eu acabei virando um roteirista - parte I)

Vamos começar do começo.

Eu sou um cara de teatro.

De um tipo bem específico de teatro.

Esqueçam a maquiagem branca na cara, as performances que sempre rolam quando a figura está chapada, seja numa balada ou num batizado, as poses afetadas e aquela voz carregada que mais parece cria do inferno do que garganta de gente de verdade.

Essa fase eu vivi dos 17 aos 27, depois cansei.

Foi justamente quando encontrei o Teatro Popular União e Olho Vivo. Não sabe de quem estou falando? Não esquenta, clica na postagem que fiz sobre o plágio envolvendo o gibi Chibata e você vai entender melhor.

Sentado, como Mão Negra, um dos líderes da Revolta da Chibata, na peça "João Cândido do Brasil".
E foi onde eu passei os últimos dez anos da minha vida. Um lugar mágico, onde aprendi praticamente tudo que sei sobre teatro, arte e cidadania.

Por razões pessoais, decidi, lá por novembro do ano passado, que me afastaria do grupo por um tempo. Naquela época – embora eu ainda não soubesse – já estava afundado até o pescoço nos quadrinhos. Um sujeito se encarregaria de colocar o pé na minha cabeça e me afundar de vez, mas eu já chego lá.

Só que foram dez anos de minha vida naquele grupo, correndo a periferia da cidade, viajando o Brasil, sorrindo, chorando, vivendo…

Eu não sairia assim, tão impune.

Eu de amarelo no meio, num puta de um juiz ladrão em "Barbosinha Futebó Crubi - Uma Estória de Adonirans"

A verdade é que quase enlouqueci. Naquele galpão do bairro do Bom Retiro, colado no centro velho de São Paulo, está boa parte de minha história e – sem dúvida alguma – muito da alma que penhorei quando decidi ser um artista.

Sou capaz de interpretar um assassino cruel numa cena e, três minutos depois, enquanto o público ainda está tentando processar a carga dramática que acabou de receber, entrar travestido de uma drag bêbada. Consigo fazer uma voz num registro agudo e alterá-lo para o grave dentro da mesma fala. Tenho uma voz potente, raras vezes precisei de microfone em apresentações a céu aberto…

Bela bosta!

Sou ator e quase não consegui escapar de um simples conflito emocional por uma decisão que eu mesmo tomei!

E era nesse pé em que as coisas estavam quando em janeiro, numa visita a Belo Horizonte, conheci pessoalmente o amigo e roteirista Wellington Srbek, com quem já trocava intensa correspondência desde julho do ano passado.

Entre muito bate papo e uma ótima pizza, ele me convidou a participar de uma reunião que faria dali a duas semanas, aqui em São Paulo, com uns caras com quem ele estava querendo trabalhar.

Foi naquela noite que descobri que ele havia acabado de se tornar o editor da Nemo. Como é de hábito, fiquei de boca calada.

Mas estava empolgadíssimo! Meu amigo era agora um editor! Publicaria quadrinhos e tinha acabado de me convidar pra uma reunião secreta, com uns tipos perigosos, armados até os dentes de pincéis e nanquim…

Na data marcada, fui pra tal reunião com a esperança que o Srbek me convidasse pra escrever o texto de introdução de algum álbum. Afinal, por qual outro motivo ele teria convidado um resenhista para a reunião?

Confesso, eu sou uma besta às vezes…

Não vou contar quem estava ou não na reunião e nem o que foi conversado. Alguns nomes não são segredo, além do Wellington e de mim, o Will estava por lá para fechar sua participação em Ciranda Coraci e o Senhor das Histórias. O Daniel Estevescom quem já havia cruzado algumas vezes mas nunca havia sido formalmente apresentado – estava ali para fechar sua participação num dos álbuns. O Jozz também foi, embora só tenha saído de lá sabendo que faria um álbum para a Nemo, mas ainda sem saber que se tratava de Otelo, de Shakespeare. O Wanderson de Souza também estava lá, tão perdido quanto eu.

Srbek & Will, no lançamento de Senhor das Histórias e Ciranda Coraci

E eu pensando na tal da introdução…

Em um determinado momento, entretanto, depois de nos contar o que era a Nemo e qual seria seu projeto editorial, o mineiro vira pra mim e pro Wanderson e atira à queima roupa, sem qualquer chance de defesa:

- Aliás, é melhor vocês sentarem mais perto e virarem os melhores amigos, porque provavelmente  
vão fazer um álbum juntos

Eu não sei exatamente que cara eu fiz, mas deve ter sido de um pavor absoluto. Só o Wellington percebeu. Se o Will reparou, foi educado em disfarçar.

Como assim eu faria um gibi???
(continua na próxima quinta)

sábado, 24 de setembro de 2011

Cachoeira

Antes que alguém venha com qualquer risinho malicioso, confesso: sim, estou escrevendo essa resenha porque o André Diniz está lançando o seu A Cachoeira de Paulo Afonso (Pallas Editora – 64 páginas - R$ 30,00) neste mesmo fim de semana, lá na HQMix.

Mas este blog não é patrocinado por absolutamente ninguém (e pelamordedeus, vai continuar assim; de gente se intrometendo no que eu penso ou deixo de pensar já basta a minha mulher), então se eu não tiver um mínimo de senso de oportunidade é melhor parar de escrever crônicas e publicar sinopses prontas.

378_maxMas o fato é que o Gibi Rasgado ficou quase um mês sem atualizações e acho que uma boa maneira de desculpar-me com meu público (todos os 07 caras) é falando sobre um bom gibi.

E já faz um tempo que tava querendo escrever essa resenha. Só não aconteceu antes porque 1) eu tinha acabado de resenhar Morro da Favela e 2) o texto da resenha ainda não tinha chegado na minha cabeça.

Não me entendam mal, não é que eu não tenha gostado do gibi. Eu adorei! Só não sabia como escrever sobre ele.

E, claro, ainda não sei.

Mas arrumando (sem sucesso) a minha estante, tropecei numa pista daquelas…

Não me perguntem como esse gibi veio parar nas minhas mãos.  Em 2001 é que não foi. Na época em que foi lançado eu estava em outra pegada. Pensava e respirava teatro e quase não lia mais gibis.

Mas o mundo é um lugar esquisito e dez anos é muito tempo. As pessoas mudam. Outras não, só melhoram.

André Diniz é um daqueles raros roteiristas que não importa o que lhe caia nas mãos, ele fará um bom trabalho. O Quilombo Orum Aiê, Morro da Favela e agora A Cachoeira de Paulo Afonso que o digam. Poucas vezes se viu um roteirista emplacar tanta qualidade de forma consecutiva em assuntos tão diversos (o primeiro é ficcional com um pano de fundo histórico, o segundo é uma história verídica sensacional, contada de maneira belíssima, e o último uma adaptação de um ícone da literatura nacional).

E eu poderia perder horas inteiras falando em como esse carioca radicado em São Paulo conduz habilmente uma história. Mas prefiro voltar a aquele gibi de 2001 e que não faço a menor idéia de como ou onde o consegui: 31 de Fevereiro, uma das primeiras publicações da então recém31_de_Fevereiro fundada Editora Nona Arte, com roteiro e arte do próprio Diniz, que àquela época já não era nenhum aventureiro e trazia em seu currículo Fawcett (em parceria com Flávio Colin, o mais genial desenhista de quadrinhos brasileiros em todos os tempos) e a série Subversivos.

Um gibi bem escrito, com uma história pra lá de nonsense sobre Gilda, um ex-travesti que acaba de amargar uma temporada na cadeia. Passada num Brasil atemporal, que mistura passado e presente através de suas sórdidas semelhanças, 31 de Fevereiro esbanja talento narrativo e já mostra o afiado roteirista que conhecemos.

Mas com uma arte irregular. Quadros muito bons se alternam a outros apenas medianos, mostrando ainda um desenhista em busca de seu estilo.

Vence a qualidade do roteiro numa história pra lá de pirada.

Mas dez anos é muito tempo.

Não sei quem enfiou na cabeça daquele desenhista de 31 de Fevereiro que ele servia pra coisa. Seja quem foi o insano que aconselhou o André a continuar rabiscando, devemos a ele nossos mais sinceros agradecimentos.

A Cachoeira de Paulo Afonso é um dos mais belos trabalhos gráficos do ano e mostra um desenhista maduro, sofisticado, de um estilo único, expressivo e com um senso de equilíbrio absurdo na composição dos quadros.

Castro Alves escreveu alguns dos poemas mais marcantes de nossa literatura. Abusado, trouxe a arte para a vida real e defendeu abertamente o fim da escravidão. Sua obra é materia secundarista e vestibular. A estrutura e a temática de seus poemas são estudadas à exaustão nas Universidades Brasil afora. Um gênio.

Adaptá-lo para os quadrinhos?

Tarefa só pra gente grande.

E é por isso que A Cachoeira se torna um gibi tão delicioso. Quando o comprei, não duvidava nem um pouco que o roteirista André Diniz daria conta do recado. Aliás, depois de Morro da Favela eu não duvido de mais nada desse cara.

Mas estava curioso em saber como ele iria desenhá-lo.

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O que vemos em A Cachoeira são três aspectos bem distintos:

De um lado a força da poesia de Castro Alves, que mesmo romântica e envelhecida por quase 150 anos de evolução humana, ainda guarda um vigor e uma atualidade impressionantes, sobretudo na questão social e nos pesos e medidas que a justiça reserva a brancos e negros, a ricos e pobres, que hoje, como na história contada no século XIX, ainda é – apesar do que digam os causídicos – bastante parcial;

No outro lado vemos um roteirista que vem, ano após ano, se firmando como um dos melhores exemplos de habilidade narrativa de nossos quadrinhos. Prova irrefutável é o zeloso respeito e absoluta fidelidade que dedicou ao texto original. E ainda assim, a forma como decidiu contar a história, em como organizou e distribuiu os elementos narrativos nas 52 páginas do gibi mostram que mesmo as obras mais improváveis de nossa literatura podem ser adaptadas para os quadrinhos e ainda assim resultarem em gibis originais e envolventes.

E aqui devo abrir um parênteses: se André fosse cineasta e esse A Cachoeira um filme, muitos o estariam aplaudindo como uma obra prima do cinema nacional, mesmo que para ser filmado houvesse consumido rios de dinheiro público através de captação de verbas no imoral mecanismo da indecente Lei Rouanet, que transfere ao poder privado a decisão do que devemos ou não consumir baseados em seus próprios interesses de exposição de marca. Como é um gibi vão dizer que é só mais uma adaptação feita exclusivamente para entrar no PNBE…

E por fim, amarrando as duas pontas, temos o excelente desenhista André Diniz, que traduziu em imagens belíssimas o que existe no poema de Castro Alves.

Das páginas iniciais, que apresentam o ambiente e as personagens principais, até as 05 páginas finais, que reservam a redenção do casal numa sequência memorável, Diniz desfila uma desconcertante maturidade gráfica, com direito a quadros geniais, como o do narrador trepado no coqueiro, onde diálogo e imagem se confundem com as águas do Rio São Francisco, ou a sequência de ecos na cabana de Maria – quando o protagonista é levado à loucura, numa sucessão de quadros alucinantes, que reproduzem de forma impressionante uma das passagens mais dramáticas do poema original.

A Cachoeira de Paulo Afonso possui um roteiro excelente e extremamente bem executado, mas é sua arte que o torna excepcional.382_max

domingo, 14 de agosto de 2011

Produtos e Produtores

Tem gente que você acaba de conhecer e não precisa de mais do que alguns minutos pra sacar que o cara ainda vai fazer barulho.
Nos quadrinhos, longe dos holofotes que o andam iluminando ultimamente por conta da recente (e merecida) exposição de brasileiros no mercado estadunidense, existe todo um mundo que a maior parte dos leitores de quadrinhos (sobretudo de comics americanos) desconhecem, mas que pulsa a um ritmo frenético.
Algo que convencionamos chamar de mercado independente.
Subterraneo_capa_sub36_will
Um conceito totalmente equivocado mas bastante difundido, atribui ao mercado independente uma suposta responsabilidade sobre a “má qualidade” dos quadrinhos nacionais, à revelia de todas as provas de vitalidade e criatividade que ele tenha demonstrado nos últimos anos.
Basta uma rápida visita aos diversos fóruns especializados em quadrinhos (em uma parte bastante especifica dos quadrinhos, é bom lembrar) para cruzarmos com palavras como “lixo”, “merda” e “mal feito”. Não discordo que parte de nossa produção não possua a devida qualidade, mas me pergunto: qual mercado não sofre o mesmo desequilibrio qualitativo em sua produção?
Ou quem em sã consciência vai dizer que aquela aberração chamada Saga do Clone é merecedora da enorme tradição de um dos personagens mais bacanas e populares de todos os tempos? E para não dizer que só pego no pé da Marvel, quem poderia prever, ao ler O Derrotista, que o cara que escreveu aquilo seria no futuro o autor de Palestina e Gorazde?
Obras boas e ruins são comuns em qualquer mercado, mesmo nos mais estruturados, como o Oriental, o Americano ou o Franco-Belga (tá, lá é mais difícil, mas também acontece).
O que não podemos é, sistematicamente, acreditar que os quadrinhos nacionais não possuem qualidade e que o mercado independente é o grande vilão da história.
necro_02Colin publicou durante anos no mercado independente. Laudo Ferreira, André Diniz, Wellington Srbek, Danilo Beyruth e tantos outros nomes que hoje começam a ser apontados como referências nos quadrinhos nacionais, já publicavam excelentes trabalhos em gibis que variavam do papel jornal à xerox em A4 dobrado.
Acontece que durante muito tempo, o mercado independente era a única opção. E os caras tinham que sambar pra se fazerem ouvidos, pois as editoras só queriam (e muitas ainda só querem) um novo Maurício, um novo Ziraldo ou – o máximo da ironia – um novo trio de alucinados como Laerte, Angeli e Glauco (acho que não preciso contar aqui o barulho que eles fizeram na década de 80, vindos diretamente do mercado independente e com uma produção totalmente não convencional, muito mais próxima do underground de Crumb e Shelton, do que o padrão Turma da Mônica).
Mas o rolo compressor chamado informática – e com ela a internet – tem mudado radicalmente a forma de se produzir quadrinhos. O barateamento dos processos gráficos que envolvem sua produção e a incorporação de softwares de edição e imagens no cotidiano dos profissionais tem proporcionado um boom qualitativo no mercado independente. A xerox deixou de ser a principal opção e se tornou opção estética.
Outro dia estava ali na HQMix, fumando um cigarrinho com o Gual, e conversávamos justamente sobre os meios de produção atuais, da facilidade em se produzir novos formatos, novas cores (não exatamente novas, as cores sempre estiveram por aí, mas agora conseguimos imprimi-las), quando nos chega um carinha barbudo, simpático, acompanhado de sua também simpática esposa.
Após um abraço afetuoso no Gual, somos apresentados. O cara se chama Rafael Química e estava ali para apresentar o seu Produto. Não, não é um trocadilho, o gibi do cara se chama Produto e conta as desventuras de um tomate que sonhava ser modelo de natureza morta para algum pintor famoso.
Idiota? Ingênuo? Uma “merda” como dizem os pseudo entendidos em quadrinhos?
Não, na verdade está mais para genial.
Química aproveita o mote nonsense para produzir uma sarcástica história sobre como as coisas podem acontecer na indústria, seja ela qual for, e em como os sonhos e anseios de alguém podem dar terrivelmente errado – ou certo – nessas terríveis engrenagens que movem o show business. Uma ácida crítica que nos leva a uma honesta reflexão sobre os meios de produção e seus valores éticos e financeiros.
E tudo isso num bom humor de fazer inveja a qualquer um, a começar pela capa serigrafada, que simula uma banal caixinha de papelão dessas que habitam qualquer prateleira de supermercado (numa referência à maior e mais genial piada da história da arte). Dividido em duas histórias, Produto nos mostra dois pontos de vista: o do surreal tomate e o de seu incansável agricultor. A mesma história, dois caminhos diferentes que se não levam ao mesmo lugar, levam à mesma constatação e que se desdobram em outros pontos de vista.
Cínico, divertido e extremamente bem feito, Produto corrobora tudo aquilo que disse sobre o equivocado conceito de que os quadrinhos nacionais não possuem qualidade e vai além: mostra que o mercado independente deixou de ser a única opção e é hoje (como sempre foi, mas hoje mais do que nunca) o principal veículo para aqueles que tem algo a dizer além da obviedade enlatada que (ainda) pretende imprimir um suposto padrão de qualidade aos quadrinhos e ditar as regras do que deve ou não ser lido.
Como disse, às vezes não precisamos de mais do que alguns minutos para perceber que um cara ainda vai fazer barulho.
Rafael Química é um deles.
TOMATECUBO
Para conhecer mais sobre o trabalho de rafael Química, acesse http://quimicarafa.blogspot.com/

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Chibata: um outro lado da questão

Hoje eu não vou falar de quadrinhos. Quer dizer, vou. Mas não diretamente.

Vou falar primeiro de teatro.

Em fevereiro de 2000, após meses de insistência, César Vieira, fundador e diretor artístico do Teatro Popular União e Olho Vivo, ao telefone, pronunciou o que minha perseverança buscava ouvir:

- Ok! Dá um pulo aqui domingo pra conhecer o grupo.

Começava ali uma experiência que mudaria o rumo da minha arte e da minha vida. Um caminho sem volta que, por mais estranho que possa parecer, me levou até esse blog nesta noite, até o gibi que estou fazendo para a Editora Nemo e que também forjou o cara que sou agora.

O Teatro Popular União e Olho Vivo (TUOV, como o chamamos) não é um grupo qualquer de teatro. É outra coisa, por vezes inclassificável, mas que gravou à força e a sangue sua marca na história do teatro nacional nos últimos 50 anos.

 

A Origem

O Teatro Popular União e Olho VivoTUOV – tem suas origens no ano de 1966, quando das primeiras reuniões objetivando as encenações de O Evangelho Segundo Zebedeu e Corinthians Meu Amor, ambas de César Vieira.

Embora ninguém soubesse à época, César Vieira era o pseudônimo de Idibal Pivetta, advogado, que passaria os vinte anos seguintes defendendo presos políticos perseguidos pelo regime militar, um dos poucos com coragem para isso naquela época.

Em 1969 estreiou, pelo Teatro Casarão, a peça Corinthians Meu Amor. O espetáculo, devido ao seu tema, extrapolou a modesta sede do teatro na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e começou, sistematicamente, a se apresentar nas várias agremiações de nome “Corinthians” que existiam na década de 60.

Em 1970, por um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, auto intitulado Teatro do Onze – uma alusão ao Grêmio Recreativo XI de Agosto, daquela instituição e ao qual era subordinado – estreiou o espetáculo O Evangelho Segundo Zebedeu, que contava a história da Guerra de Canudos através da linguagem de cordel.

O espetáculo renovou a cena teatral paulistana ao apresentar em linguagem popular um exercício metalinguístico até então pouco visto no Teatro Nacional: a peça narrava a Guerra de Canudos através de uma história que ocorria dentro de um circo e se apropriava de elementos religiosos para contar a messiânica aventura de Antonio Conselheiro; não bastasse isso a encenação ocorreu dentro de um circo de verdade, no Parque do Ibirapuera.

O sucesso foi imediato e o grupo, mesmo sendo amador, ganhou todos os prêmios nacionais naquele ano, além de representar o país no Festival de Nancy, na França.

 

Anos Difíceis

Em 1971, quando acabou a carreira dos dois espetáculos, diversos  membros do Teatro Casarão foram integrados ao Teatro do Onze.

Começaram então os ensaios para a peça Rei Momo, que contaria a história do Brasil a partir da estrutura do Carnaval e propunha a eleição direta do Rei Momo do título, através de cédulas previamente entregues ao público.

O Espetáculo estrearia no ano seguinte e, novamente, foi convidado, pelo ineditismo de sua linguagem, a representar o país em outro festival internacional, desta vez o de WROCLAV, na Polônia.

No retorno, o Teatro do Onze se desvinculou do Grêmio Recreativo e começou a percorrer os bairros periféricos de São Paulo, já com o nome Teatro União e Olho Vivo.

A ousadia não passaria despercebida pelas autoridades militares que governavam o país. Em 1974 o Teatro União e Olho Vivo, após uma apresentação num colégio da Vila Prudente, foi surpreendido por agentes militares infiltrados no público e  César Vieira – dramaturgo do grupo – ficou mais de 90 dias sob os “cuidados” do DOPS.

Apesar das ameaças constantes de novas prisões, o grupo continuou se apresentando nos bairros populares e, em 1978 estreiou a peça Bumba, Meu Queixada, contando as greves operárias ocorridas nas décadas de 50 e 60 em Contagem/MG e Perus/SP.

A feliz coincidência com o movimento operário que eclodia na mesma época no ABC paulista rendeu ao grupo alguns de seus melhores espetáculos, na sua imensa maioria encenados em sedes de sindicatos – clandestinas ou não.

No apagar das luzes do indecente regime político que vigorava no país, o Olho Vivo ainda seria protagonista de mais um incidente: teve, em 1984, a estréia de seu espetáculo Morte aos Brancos – A Lenda de Sepé Tiaraju adiada devido uma ameaça de bomba.

A denúncia anônima era clara: “vamos explodir essa merda de teatro subversivo e todos os que estiverem assistindo”.

A ameaça, depois de minuciosa investigação policial no local, se provou falsa e o espetáculo estreou no final de semana seguinte.

 

A Resistência Cultural

Com a redemocratização do país e uma guinada cada vez maior das artes em geral a um caráter quase que exclusivamente comercial, o Teatro União e Olho Vivo foi acusado por muitos de ser um grupo “ultrapassado” e representante de uma vertente teatral “em extinção”.

Apesar das críticas, o grupo continuou se apresentando nos bairros periféricos de S.Paulo e não alterou suas opções estéticas, apresentando uma opção popular de teatro, comprometida com a ética e em prol da cultura brasileira.

Entre 1991 e 1996 estreou mais dois espetáculos: Barbosinha Futebó Crubi – Uma Estória de Adonirans, contando a história do paulista Adoniran Barbosa, um dos maiores compositores nacionais, autor de Saudosa Maloca, Trem das Onze e outros imortais sucessos, e Us Juãos i os Magali, representando a tresloucada tentativa de fundação de uma república independente em São Jorge dos Ilhéus/BA, pelo gaúcho Sebastião Magali, no começo do Século XX.

 

A Descentralização da Cena Paulistana

No final dos anos 80 e começo dos 90, começaram em S.Paulo, inspiradas nas experiências do Teatro União e Olho Vivo e Teatro Vento Forte – grupo da capital paulista, liderado pelo incansável Ylo Krugli – diversas tentativas de descentralização da cultura, geralmente realizadas por jovens da periferia.

Foi então que surgiram importantes grupos, como a Brava Companhia, Teatro Pombas Urbanas – hoje uma fundação com um reconhecido trabalho social na Cidade Tiradentes, no extremo leste da Capital – e Cia S.Jorge de Variedades, entre outros.

O surgimento de tais grupos consolidou o trabalho iniciado nos idos de 1966 e criou uma importante rede de comunicação entre os coletivos paulistas na cena teatral da cidade, sobretudo na periferia, extremamente carente de iniciativas nesse sentido.

O Teatro Popular União e Olho Vivo ainda apresentou, entre os anos de 2001 e 2010, o espetáculo João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata, que narra a epopéia do marujo João Cândido Felisberto em sua luta pela abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra de 1910.

E é aí que voltamos à minha história dentro do Teatro Popular União e Olho Vivo, e onde teatro e quadrinhos se misturam.

 

João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata

Quando entrei no grupo, no início de 2000, ainda peguei a rabeira das pesquisas que resultariam no texto da peça sobre o Marinheiro que mudou a história do Brasil naquele começo de século XX.

Cheguei por lá antes da primeira cena ser escrita.

Eu era um dos poucos na época que possuíam computador em casa. Nada mais coerente portanto que eu fosse o encarregado de digitar os originais do César.

Atravessava as noites decifrando o caótico código de letras escritas com caneta de ponta porosa – a única que o César consegue usar, devido à grave artrose que tem nas duas mãos, fruto direto das torturas a que foi submetido na temporada em que passou na cadeia.

Eram vários cadernos, com xerox de matérias de jornais da época, desenhos e fotos, tudo devidamente anotado e comentado.

Entre os recortes, diversas cenas, rabiscadas, corrigidas, reescritas.

Digitei aquele texto inteiro pelo menos 03 vezes (ninguém fazia backup naquela época e os disquetes tinham o péssimo hábito de sumir do lugar onde foram guardados).

Tanto esforço me fez decorar cada uma das falas, de todas as personagens, tornando-me assim um dos profundos conhecedores daquele texto, de sua estrutura narrativa e de todas suas cenas.

O espetáculo estreiou em novembro de 2001, no Teatro Municipal de Santo André e é, sem dúvida, a mais longa e frutífera peça da história do grupo.

Percorremos diversos estados com o espetáculo. Frequentamos os principais festivais do país, entre eles o Festival Internacional do Recife e o Poá EmCena. Mas sobretudo, fizemos mais de 500 apresentações gratuitas na periferia de São Paulo.

Uma marca surpreendente.

O texto da peça foi lançado em livro pela Editora Casa Amarela, em 2003, e reeditado pela Prefeitura Municipal de Guarulhos em 2008, numa coleção que trazia também todos os outros textos do grupo.

Sobre o texto, prefiro transcrever as palavras do professor Antonio Cândido, um dos maiores nomes da Língua Portuguesa em todos os tempos e autor de Literatura e Sociedade, extraídas do prefácio da publicação de 2003:

“A escolha de César Vieira equivale a um convite para olhar a nossa história sem excluir os marginalizados pelas ideologias oficiais. Como sabemos, todas as providências foram tomadas para apagar da memória nacional a ação dos revoltosos de 1910 na Marinha de Guerra; para vilipendiar os seus participantes e tentar promover o esquecimento coletivo. Foi o que quase se conseguiu. Das franjas desse “quase” emergiram alguns homens lúcidos, como Edmar Morel, ou como o poeta surrealista francês Benjamin Péret, casado com brasileira, que esteve algum tempo no Brasil por volta de 1930, aqui militou na esquerda, aqui foi preso e viu apreendida e provavelmente destruída pela polícia a biografia que escrevera sobre João Cândido, intitulada O Almirante Negro. A eles se junta agora César Vieira, que recria a façanha de 1910 na chave da arte, jogando com a imaginação e a fantasia, que permitem realçar os traços da verdade. É o que faz essa peça por meio da música, da cor, do gesto organizado, da sátira, da indignação – dispostos em quadros sucessivos segundo um ritmo de vaivém no tempo, de maneira a modular uma espécie de grande parada histórica anticonvencional.”

E ainda a observação aguda do historiador Clóvis Moura (1925 – 2003) também autor de um dos prefácios, num de seus últimos textos publicados:

“Dizemos que é, por isso, uma obra de teatro e não da história, embora a essência dramática, lírica e política se reflita no espetáculo. Muitos dos seus personagens, assim, são recriados, muitos são criação do autor da peça para dar ritmo dramático à sua estrutura, mas todos autênticos teatralmente pela verossimilhança com a estrutura dramática da peça. Muitos personagens atuam como contraponto que ligam os diversos fatos e atos da peça numa unidade de ação contínua, como convém ao teatro. O trabalho de César Vieira e do seu grupo União e Olho Vivo é um exemplo de ação coletiva em função da conscientização social e artística do nosso povo.”

Pois foi a estrutura narrativa dessa peça e diversos personagens e situações ficcionais que surgiram também na publicação de 2008 da Editora Conrad:

Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil, de autoria de Olinto Gadelha e Hemeterio.

Sobre os autores e a Editora Conrad nada direi. Eles já foram condenados da acusação de plágio em 1ª instância e possuem meios legais para contestar a decisão judicial.

Em relação ao Teatro Popular União e Olho Vivo, posso dizer que este é apenas mais um episódio em sua história. Triste, é verdade, mas apenas mais um episódio de um história de luta, perseverança e ética.

Já de César Vieira, a única coisa que posso dizer é que ele é o homem mais talentoso, corajoso, honesto e ético que tive o privilégio de conhecer. Prestes a completar 80 anos, é um homem que ainda acredita no ser humano e numa sociedade mais justa. Não é pouca coisa.

Aos leitores que acompanharam esta postagem até o final só posso dizer obrigado. E aconselhar que antes de tomarem partido para qualquer um dos lados, leiam as duas obras e tirem suas próprias conclusões.

No final de 2010, por questões pessoais, tive que me afastar temporariamente do grupo.

Ironicamente acabei aqui, escrevendo sobre quadrinhos.

O que não muda em nada a minha opinião, claramente expressa nesta postagem.

 

Lillo Parra – Blogueiro e roteirista de quadrinhos – ou, como sou conhecido no teatro, Will Martinez – ator popular.

 

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

À Barca!

AutoBarcaInfernoEm dez anos de Teatro Popular União e Olho Vivo, vi pelo menos umas vinte adaptações – amadoras e profissionais – de obras do nosso dramaturgo, César Vieira.

Aos que estão perguntando: sim, o mesmo que processou a Conrad e os autores de Chibata por plágio. Pois é, faço resenhas de quadrinhos, estou produzindo um roteiro para a Editora Nemo, mas também sou ator de teatro e, por acaso, participei da montagem de João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata desde o rascunho do texto. Mas isso é matéria para uma futura postagem.

Voltando ao assunto, vi excelentes adaptações de nossas peças, outras nem tanto. A explicação não é simples mas é clara.

Apesar da excelência do texto, uma montagem – por mais fiel que seja – traz em seu bojo a visão do diretor ou produtor, a performance dos atores, o talento do cenógrafo, do iluminador e do figurinista e mais um monte de coisas que envolvem mais uma centena de variantes que podem influenciar o trabalho de mil formas diferentes. E por aí vai…

O que fica? O resultado, que pode ser bom ou ruim.

A mesma lógica se aplica às adaptações de peças ou de obras literárias para qualquer outra mídia.

Na história do cinema temos um sem número de exemplos de ótimas e péssimas adaptações. Na história da televisão também. No teatro, quando adaptam obras que não em seu formato original, a história se repete.

Nos quadrinhos não poderia ser diferente.

Mas ao contrário de outras mídias, o aquecimento do mercado de quadrinhos nacionais e o consequente aumento de adaptações literárias por essa mídia, sintoma direto do recente interesse do governo na compra de produtos de tal segmento, parece despertar o preconceito daqueles que as atribuem a uma suposta desmoralização da literatura.

Na minha opinião, tal preconceito faz parte de um sentimento muito maior, que pretende colocar os quadrinhos numa categoria desonrosa entre as diversas formas de expressão e arte.

O fato, que convenientemente é esquecido por quem segue essa linha de pensamento, é que uma história em quadrinhos não é um livro e não pode ser tratado como tal. Em muitos aspectos é superior e em outros muitos, inferior à literatura.

Simplesmente porque não é literatura. São histórias em quadrinhos e possuem características e signos próprios. Assim como um texto de uma peça não é a peça em si até ser encenada (seu veículo original), uma adaptação em quadrinhos de uma obra literária não é a obra, mas uma interpretação dela para um outro meio.

E é aí que caímos num puta dum avião apertado, na última fileira (aquela que não permite que você recoste o banco), numa viagem de São Paulo a Salvador.

É sério, qualquer um enlouqueceria. Duas horas de viagem, sem o menor espaço para ligar o notebook e com o ipod serenamente repousado no colo de minha esposa, seis fileiras à frente. Sim, porque eu sou um viciadinho em coisas tecnológicas. Mas as uso para entretenimento e conhecimento, porque assim é o mundo hoje. O que não me impede de ler um bom livro, diga-se.

Mas também não tinha nenhum bom livro por perto.

Então me lembrei que havia contrabandeado dentro da bolsa do note o Laudo. Não ele literalmente, é claro. Refiro-me a Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, adaptado por Laudo Ferreira (Editora Peirópolis, R$ 35,00).

Como sempre faço, li o texto da quarta capa, as orelhas e a introdução. Nunca deixo de fazer isso e sempre aconselho as pessoas que não o fazem a adquirirem o hábito. Esses textos, cada vez mais presentes nos álbuns de quadrinhos, trazem pistas preciosas sobre o que você está prestes a ler.

AutoBarcaInferno1

Começada a leitura, não precisei de mais de cinco páginas para xingar o Laudo de tudo o que é nome. Como assim texto original em português do século XVI? Já não basta essa senhora, dormindo desaforadamente com o banco reclinado sobre o meu joelho, esse ármário ao meu lado (coitado, como se o cara tivesse culpa de ter, sei lá, uns 03 metros de altura) e eu ainda vou ter que ler um gibi num português que não é praticado há pelo menos 200 anos?

Mas eu tinha nas mão um gibi do Laudo, o mesmo cara que teve a ousadia de adaptar a vida de Cristo nos dois belíssimos volumes de Yeshuah. A mesma história, contada e repisada milhares de vezes, mas que ele contou de uma maneira totalmente inesperada.

Uma história que me emocionou como poucas coisas que li na vida.

Ainda restava cerca de uma hora e meia até Salvador…

Decidi ver até onde o Laudo iria me levar dessa vez. Auto da Barca do Inferno em texto original? Vai pra mais de vinte anos que li isso. Resolvi confiar no Barqueiro, digo, no artista.

O Neriney Moreira – um dos fundadores do Teatro União e Olho Vivo em 1966 e que está conosco até hoje – sempre nos ensinou:

“Um texto de teatro possui uma musicalidade própria. Se você achar o tom, poderá fazer o que quiser com ele”.

Um sábio ensinamento, para quem lê textos teatrais ou – como acabei descobrindo – para quem lê qualquer texto.

E para se ler Auto da Barca do Inferno isso foi fundamental. O segredo está na capacidade individual de imersão do leitor. Quanto mais ele “entrar” dentro da história, mais fácil será o entendimento.

Afinal, por mais séculos que separem o autor português do gibi do Laudo, ainda é língua portuguesa.

Foi só criar vozes distintas na minha cabeça (sempre tive facilidade com isso) e começar a viagem.

E senhores, eu posso garantir, ler a Barca num avião que não parava de sacolejar, na situação em que eu me encontrava foi uma experiência inesquecível.

De um lado o próprio diabo:

- À barca, à barca, boa gente, que queremos dar a vela!

E do outro a aeromoça com aquele sorriso demoníaco:

- O senhor aceita uma balinha?

E de repente a viagem começou a ficar muito divertida.

A forma como Laudo recriou o texto de Gil Vicente é assombrosa. Para quem ainda não conhece a história, temos um cais no fim do mundo, onde estão atracadas duas barcas. Elas estão ali para dar passagem aos recém falecidos. Uma das barcas, cujo barqueiro é o próprio demônio, levará os malditos, os impuros, os ladrões e assasinos, as prostitutas, os corruptos, os… bem vocês já entenderam, né? Pois bem, essa primeira barca levará tais desafortunados ao inferno. A segunda barca – a da Glória – tem como barqueiro um Anjo do Senhor, e embarcará aqueles que são dignos do paraíso celestial.

Todo o sarcasmo do autor português, que enviava à barca infernal pessoas que existiam de verdade na sociedade portuguesa daquele começo de século XVI, são magistralmente recriadas por Laudo.

A sutil ironia escondida entre uma palavra e outra e entre os diálogos, os momentos de silêncio, os olhares, as investidas do diabo, o contra ponto cômico na trama…

Não há um único detalhe que tenha passado desapercebido por Laudo. Prova inequívoca que uma boa adaptação precisa sim de muito estudo, mas sobretudo, precisa de um olhar artístico diferenciado.

E nisso Laudo fez o papel de um verdadeiro diretor de teatro. E não só dele. Pois se analisarmos o gibi, veremos que Laudo foi também cenógrafo e figurinista, além de diretor de atores de toda a peça. Só não foi iluminador porque no caso das cores utilizadas contou com o também talentosíssimo Omar Vinole, velho parceiro de outros mares.

E soube como niguém distribuir um texto pesadíssimo pelas mais de 40 páginas da adaptação. Não por acaso, lá pela vigésima página ainda que inconscientemente, acabei me vingando do ármario ao meu lado (coitado) e da dorminhoca à minha frente.

Começou baixinho, quase imperceptível. E antes que eu me desse conta, já estava recitando o texto de Gil Vicente em voz alta! O cara do meu lado começou a me olhar como se eu tivesse alguma doença contagiosa e inexplicavelmente diminuiu o tamanho de seus ombros. A dorminhoca que a essa hora já estava acordada por conta daquele negócio que chamam de lanche (“aceita um hot-dog senhor?”) não conseguiu mais dormir.

E eu me divertindo como nunca.

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, por Laudo Ferreira é tudo o que uma adaptação pode ser e é ainda mais: é uma história de quadrinhos de verdade, com quadros, balões, sarjetas, recordatórios, enquadramentos, onomatopéias…

Não pretende substituir o original, mas sim mostrar de uma forma diferente, todo o seu valor e suas nuances.

Detalhe Auto da BarcaE num tempo em que cada um diz o que quer, inclusive taxar como criminosas adaptações feitas por profissionais competentes e honestos, que estão apenas aproveitando uma oportunidade de mercado, Auto da Barca do Inferno é uma aula de quadrinhos e das possibilidades ilimitadas desse meio.

Justamente por não ser literatura, mas sim uma coisa bem diferente.

 

Para conhecer mais sobre a obra de Laudo Ferreira, acesse o Blog Mamão.

Para ler a matéria Os quadrinhos podem matar a literatura, de autoria de Luís Antônio Giron e publicada no site da Revista Época, clique aqui.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Brincando de Aro

Coraci“Você não sabe nada sobre isso, é uma criança!”

A Fernanda é minha sobrinha, uma doce menina de 10 anos de idade. Filha da Zanze e irmã da Francine, outra graça e no auge de seus 15 anos.

A Francine é bela, loira, magra, falastrona, inteligente, vivaz, espirituosa e, em poucos meses na nova escola, já havia se tornado uma das mais populares. É e sempre foi assim, nunca vai mudar. É um daqueles seres iluminados.

A Fernanda é bem diferente. Quieta, introspectiva e genial, não há palavras para defini-la. Com apenas 10 anos desenha de uma forma que eu nunca aprendi, mesmo tendo feito artes plásticas. Sua noção de equilíbrio numa composição é assustadora para alguém de tão pouca idade.

E também lê de tudo. E mais, cria histórias em sua cabeça. Devora um gibi da Turma da Mônica Jovem em poucos minutos. E não se contenta. Peça para ela contar qualquer história que acabou de ler e você terá uma grata surpresa: ela conta a história pontuando os momentos chaves, dimensionando a personalidade das personagens e traçando a linha narrativa da história, com climax e tudo!

A Fernanda ensinou-me algo que intuitivamente já sabia, mas não enxergava: as crianças são muito mais do que aparentam ser. Subestimá-las é um desrespeito, além de ser uma crueldade que pode, muitas vezes, destruir toda uma vida.

Infelizmente, esse pensamento arcaico foi amplamente disseminado nos mais variados meios culturais. Quando não está focado numa sexualização precoce, está centrado numa idiotização da capacidade intelectual da molecada.

Nos quadrinhos não é diferente. Os exemplos mais óbvios – Disney e Maurício – não nos dão a medida exata do que acontece. Ambos estão internalizados na memória das crianças desde os tempos em que nossos avós usavam fraldas (no caso do primeiro) ou, como no caso do segundo, desde que eu era um feto (e olha que não sou mais nenhum garotinho). E como tudo o que se mantém há tanto tempo, alternam momentos ruins em suas produções com fases absolutamente geniais.

Mas via de regra, a produção de quadrinhos infantis possui a tendência de ser pouco interessante ao público que realmente interessa: as crianças. O que parece um contrassenso num país que possui Lobato, Maurício, Ziraldo e mais um montão de gente boa.

Mentalidade dos editores? Não sei. Entraria num campo que desconheço e seria leviano culpar alguém. Só sei que passei a infância sem quadrinhos de qualidade, exceção feita aos já mencionados pais do pato e da dentuça. Tinha também Ziraldo, mas esse só me foi apresentado quando eu já era um adulto.

Mas ao que tudo indica, esse cenário começa a mudar, na esteira de um mercado que vem se mostrando cada vez mais atraente já temos alguns ótimos exemplos de quadrinhos infanto-juvenis.

Os dois últimos foram lançados nesse fim de semana e são excepcionais: Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias, ambas de Wellington Srbek e Will (Editora Nemo, R$ 19,00 cada).

Ciranda_capaPertencentes à coleção Mitos Recriados em Quadrinhos, são o cartão de visitas da estreante Editora Nemo. E ela começa muitíssimo bem.

“Não julgue um livro pela capa”, dizia a minha avó.

(Mentira. Não dizia, ela mal sabe ler. Mas é um dos ditados que ela com certeza diria e que, geralmente, é verdade.)

Mas não nesse caso. Os dois álbuns saltam aos olhos já na apresentação, com um acabamento de primeira e um preço pra lá de honesto.

SENHOR~1Mas não são nas edições bem cuidadas que reside a força desses dois álbuns e sim na qualidade do conteúdo.

Ciranda Coraci conta a versão indígena da história da Criação, do Sol e da Lua. Já O Senhor das Histórias nos traz um dos contos do mito africano Anansi, também conhecido como Deus-Aranha e o tal senhor das histórias do título.

São histórias infantis sobre mitos cujas origens se perdem no tempo. Escritas numa linguagem acessível à gurizada, num primeiro momento sequer mereceriam uma folheada mais séria destes senhores tão acostumados a Gaimans e Moores.

E é aí que todos se enganam, eu inclusive. Os dois álbuns são uma aula de quadrinhos, equilibrando na medida exata narrativa e desenhos e tornando as histórias atrentes para crianças e adultos de todas as idades.

O talento do roteirista mineiro Wellington Srbek é inquestionável. Ganhador de inúmeros prêmios HQMix e autor de alguns dos mais belos trabalhos dos últimos 15 anos, Srbek vem há algum tempo dedicando uma boa parcela de sua produção ao público infantil.

Na série institucional Pratique Gentileza, criou uma personagem adorável: o grandalhão e simpático robô Urbanoide. Com distribuição gratuita e falando de cidadania, a série tem tudo para se tornar clássica.

Ali ele aprimorou muitos recursos narrativos próprios da literatura infantil, sobretudo na utilização formal da lingua portuguesa e no ritmo narrativo diferenciado para aquele público alvo, e conseguiu um resultado de rara qualidade.

E é essa experiência que ele agora aplica de forma desconcertante em Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias. As quatro primeiras páginas do mito contado em Ciranda são primorosas.

Um roteiro que em nenhum momento desrespeita a inteligência das crianças, tratanto de temas curiosos a quem tem mais porquês do que respostas em sua curta existência, mas sempre com leveza e muita diversão.

E tocando em temas bastantes sérios também, como morte, doença e miséria, sem entretanto, cair nas óbvias “lições de moral” ou respostas fáceis.

“Gibi para crianças que não são bobocas”, diria a Fernanda.

(E diria mesmo, desta vez não é mentira.)

Mas Srbek não é apenas um bom roteirista.

Dizem que mineiro é desconfiado, que fala pouco e fica ali na dele, só observando, esperando o momento certo de entrar na conversa ou tomar uma atitude.

Folclores regionalistas à parte, o mineiro Srbek realmente ficou bastante quietinho e esperou sim o momento certo para dar o bote.

E o bote nesse caso foi o desenhista paulista Will.

Olhando os dois álbuns, ninguém acredita.

AnansiComo é possível que um talento do tamanho desse desenhista tenha ficado restrito nos últimos anos ao mercado independente? Como nenhuma editora reparou nesse egresso do mercado editorial, que resolveu fazer quadrinhos por curtir o negócio?

Não há como negar o talento de Will. Não há páginas ruins nos álbuns, sequer existem as menos bonitas. Em Ciranda e O Senhor só temos páginas belíssimas e algumas simplesmente geniais.

Cor, traço, equilíbrio… Tudo no trabalho de Will parece fluir naturalmente.

Os jovens adultos com menos de 30 talvez nunca tenham visto isso, mas no meu tempo de moleque era comum rodarmos a Vila atrás de pneus velhos, jogados em terrenos baldios ou às margens dos corrégos.

Mas não era qualquer pneu. Tinha que ser de bicicleta, mas os mais cobiçados eram os das “motocas”. Pegávamos o pneu e um cabo de vassoura qualquer. Rolávamos o dito cujo ladeira abaixo e íamos controlando sua direção com o cabo de vassoura. Aquilo era uma das melhores diversões que existiam. Enquanto “dirigíamos” o pneu podíamos ser qualquer pessoa, fosse o “Fitipaldi” ou um piloto de foguete. Não havia limites à imaginação. Chamávamos isso de brincar de “aro” (aro mesmo, a base que mantém a forma do pneu).

A arte do Will é isso. É brincar de “aro”. É ir até onde a imaginação alcançar.

Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias são o casamento perfeito entre um roteiro inteligente e um traço mágico.

Infelizmente, jamais verei a Fernanda (e creio que nenhuma outra criança) brincando de aro pelas asfaltadas ruas de São Paulo.

Mas ao menos poderei presenteá-la com uma coisa que não havia na minha infância: uma viagem por mundos mágicos em forma de histórias em quadrinhos.

domingo, 26 de junho de 2011

E a Nemo estréia no mercado.

Há pouco mais de um mês, a Editora Nemo, do Grupo Editorial Autêntica, anunciou que começaria suas atividades no mercado de quadrinhos.

Com uma proposta editorial que encheu os olhos de todos, a Nemo anunciou os nomes de Moebius e Hugo Pratt, além de quatro coleções de produções totalmente nacionais: História & Quadrinhos, Shakespeare em Quadrinhos, Versão em Quadrinhos e a série Mitos Recriados em Quadrinhos.

Pois a espera acabou! Dia 02 de julho, na Livraria HQMix, em São Paulo, à partir da 19:00 horas, serão lançados os álbuns Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias, ambos de autoria de Wellington Srbek e Will, que estarão presentes no lançamento, e também o álbum europeu mais aguardado dos últimos 30 anos: Arzach, de Moebius.

Lançamento

CIRANDA CORACI

A história do herói Coraci (o Sol) e de sua noiva Jaci (a Lua) é recriada numa HQ repleta de cor e movimento. Nas páginas desta Ciranda Coraci, personagens e ambientes, mitos e lendas ganham vida através de um texto poético e belas imagens.

Ciranda Coraci

 

O SENHOR DAS HISTÓRIAS

Nas páginas deste álbum, conheça Anansi: O Senhor das Histórias. Em sua companhia, numa fantástica aventura de sabedoria e coragem, descubra a resposta para a pergunta: “de onde vêm as histórias?”

Senhor das Histórias

ARZACH

Finalmente chega ao Brasil uma das HQs mais influentes e revolucionárias da história dos quadrinhos. Neste primeiro volume da Coleção Moebius, publicado com alta qualidade gráfica e no formato europeu original, encontramos todas as histórias clássicas de Arzach e ainda mais.

 

Arzach

domingo, 5 de junho de 2011

Todos os corpos do mundo.

Desfile Nazista

Imbecilidade, intolerância, crueldade e morte.

Fome, doença, ódio e arrogância.

Poder, sobretudo ele, ditando o rumo de milhões de vidas num tempo em que o mundo perdeu qualquer traço de humanidade.

A 2ª Guerra Mundial não foi apenas uma guerra, foi a mutilação de tudo aquilo que nos torna humanos.

Graças ao cinema e a filmes como A Ponte do Rio Kwai ou O Mais Longo dos Dias, crescemos com aquela soberba visão dos heroicos aliados lutando contra o mal nazista. E por aliados entendam-se os norte americanos.

Ainda nos remetendo às películas, os recentes O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler, Além da Linha Vermelha e o excelente O Pianista nos ajudam a entender que nem todo comandante em guerra é John Wayne e que nem todo alemão é um nazista cruel e desumano.

Mas o cinema precisou de mais de meio século para alcançar maturidade suficiente para apresentar tais roteiros, histórias despidas da hipocrisia que nos fazia enxergar o holocausto, mas não a covardia de uma arma nunca antes vista na história da humanidade, lançada contra milhares de civis indefesos em Hiroshima e Nagasaki. A mesma hipocrisia que nos enoja com os experimentos conduzidos por médicos alemães, mas nos fecha os olhos para o questionável e omisso comportamento de Eugênio Pacelli – o Papa Pio XII.

Nos quadrinhos não foi diferente.

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Do Capitão América e seus similares aos gibis nacionais que povoavam as bancas das décadas de 50 e 60, o comportamento heroico das forças aliadas era sempre enaltecido e a vilania dos nazistas execrada. De um maniqueísmo quase infantil, os nazistas sempre perdiam. Se a Guerra de verdade tivesse acontecido como nas páginas daqueles gibis, teria durado 20 dias. Mas não durou.

Os alemães desenvolveram uma força bélica surpreendente e mortal e dobrou os joelhos do mundo. Foram necessários anos até que a balança das forças começasse a se equilibrar. Governantes caíram e o mapa mundial foi redefinido à custa de milhões de vidas inocentes.

Nenhum escudo de aço indestrutível, com a bandeira norte americana pintada, protegeu a cabeça da jovem judia. Nenhuma amazona resgatou qualquer um dos homossexuais ou deficientes físicos condenados sumariamente à morte. Décadas se passaram até que gibis como Maus ou A Guerra de Alan fossem produzidos.

No Brasil, ainda que o gênero tenha comportado gênios como Rodolfo Zalla, a situação não era muito diferente.

Os motivos políticos foram deixados de lado nos quadrinhos, algo bastante apropriado para um governo que lançou ao esquecimento as tropas brasileiras que atuaram no conflito. É verdade que o público alvo era outro, naquela época composto em sua maioria por jovens guris. O mercado também não estava interessado em quadrinhos adultos, sobretudo os políticos.

Mas assim como no mundo, no Brasil (embora em menor escala), com uma pitada mais séria aqui, um pouco de humor ali, o tema voltou a ser abordado após décadas de esquecimento.

O recente aquecimento de um mercado adulto de quadrinhos nacionais permitiu que chegasse a público no ano passado o excelente Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, que conta justamente a Campanha da Força Expedicionária Brasileira no palco de operações italiano.

E agora a Conrad acerta em cheio com Guerra: 1939 – 1945 de Julius Ckvalheiyro (Conrad Editora - R$ 30,00).

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Guerra é, em todos os sentidos, um gibi excepcional.

A opção estética do autor surpreende pela maturidade e correção histórica. Ao invés de produzir histórias de guerra como antigamente, contando a óbvia visão dos vencedores, Ckvalheiyro optou por contar a guerra dos vencidos e dos vencedores, do herói e do canalha, do crente e do cético. O resultado emociona pela sinceridade e por mostrar a exata medida de toda aquela imbecilidade.

Os capítulos foram divididos de acordo com os anos em que ocorreram. Pesquisador aplicado, cada capítulo é habilmente contextualizado pelo autor, nos situando no momento histórico e político dentro da guerra, tornando a leitura dos quadrinhos que se seguirão muito mais proveitosa e prazerosa. E isso num texto ágil e incisivo, sem firulas, sem valores de juízo, mas também sem o ranço didático tão comum nesse tipo de expediente.

A leitura dos textos introdutórios consegue a proeza de nos fazer passear pela guerra e entender suas motivações políticas, nos mostrando uma face do conflito que comumente não é abordado no ensino fundamental. Os textos, quando aliados às histórias que os ilustram, fazem o gibi ir além: trazem o leitor para dentro da guerra. Algo nada desprezível nesses tempos em que o Ministério da Educação finalmente começa a perceber o poder de infiltração e absorção dos quadrinhos em salas de aula.

Mas é na narrativa gráfica que Ckvalheiyro mostra a que veio. As histórias – curtas, não mais de que um punhado de páginas cada – surpreendem pela beleza e emoção. Num traço realista, obtido através do estudo e utilização de fotos do conflito, em preto e branco, produz um resultado plasticamente desnorteante e é responsável por páginas belíssimas. Entretanto, a utilização de alguns efeitos às vezes confunde um leitor menos treinado, dificultando a localização dos elementos gráficos na página. Felizmente, essa falha é observada em apenas meia dúzia de quadros e não prejudica em nada o entendimento geral das histórias.

O passeio pela guerra continua também na estrutura narrativa: as 03 primeiras histórias apresentam os grandes vilões do conflito. Um nazista cruel mas não caricato, como estamos acostumados, já nos dá o tom, logo nas primeiras páginas, do que veremos em todo o restante do álbum. Um piloto nazista extremamente lúcido de seu dever nos mostra um outro tipo de guerra, um outro tipo de soldado, em contraponto ao combatente da primeira história. Um recurso genial para dimensionar exatamente o que era crueldade e o que era dever. E por fim um piloto de um caça japonês, que em apenas 08 páginas nos mostra um resumo de milênios de anos de cultura oriental, personificados num único homem.

Em seguida somos apresentados a um dos grandes heróis da guerra, que a história ocidental fez questão de colocar em segundo plano por conta da “ameaça” que representou ao mundo nos anos posteriores ao conflito: a União Soviética.

E o autor faz questão de mostrar que o papel dela não só não foi pequeno como também fundamental para a vitória das forças aliadas.

E então os judeus.

E aí não há palavras suficientes para justificar o tamanho da crueldade cometida naqueles anos. Algo que o mundo não pode esquecer.

Apresentar o holocausto é a obrigação mínima de cada um dos artistas que se aventurem por essa seara. O alerta continua válido, principalmente com a recente escalada de forças nacionalistas na Europa, onde alguns grupos, inclusive, tentam disseminar a ideia de que o massacre sistemático de judeus durante o confronto não passa de uma “invenção” histórica.

O alerta também continua válido para o povo judeu, que esquecendo o mal que sofreu, se comporta de forma perigosamente semelhante – com a inexplicável conivência das grandes nações – em relação ao povo palestino, isolando-os (geograficamente e socialmente) e os condenando à fome, miséria e morte.

E por fim os americanos, numa macabra simetria com as duas primeiras histórias do álbum. Um toque de sutileza do autor para mostrar que a grande vitória americana também foi uma grande derrota – em todos os sentidos.

Uma única falta é sentida: não há qualquer menção a Campanha da FEB na Itália. Uma história sobre a participação brasileira no conflito – que também não foi desprezível, sobretudo para o avanço das forças aliadas por aquela porta de entrada no velho continente – teria tornado o gibi perfeito (sobretudo para fins didáticos). Fica a sugestão para um provável segundo volume.

Não há uma única história ruim, mas três merecem destaque e habilitam o álbum a ser uma das melhores publicações do ano: o piloto japonês, o soldado russo e a nova arma americana.

Não são histórias de guerra, são poesias gráficas sobre o ser humano, seus valores, sua beleza e o tamanho de sua crueldade.

Ckvalheiyro conseguiu com isso produzir um gibi belíssimo sobre a maior tragédia da história da humanidade, de forma séria, didática e – principalmente – estética e artisticamente impecável.

Não é pouca coisa.

domingo, 15 de maio de 2011

Tapa na cara - Dentada no cérebro

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Quando moleque (mas moleque mesmo, com 9 ou 10 anos), costumava pegar um gibi de forma desencanada. Lia por puro prazer de juntar as palavras e descobrir como aqueles balõezinhos  formavam vozes na minha cabeça.

Vozes que eu – claro – reproduzia nas minhas solitárias brincadeiras ao pé da escada lá de casa (23 degraus, não me esqueço, tenho uma cicatriz para cada um deles). Vozes que décadas mais tarde seriam fundamentais em minha carreira no teatro.

Claro que isso foi antes de Frank Miller virar de cabeça para baixo o mundo dos comics. Era um tempo em que o gibi era só um gibi. Simples assim.

Não havia tantas reviravoltas, sagas intermináveis, 617 títulos diferentes interligados na mesma história e essas mortes e ressurreições que já perderam totalmente a credibilidade.

A história era aquilo que era. No máximo continuava na edição seguinte.

Por isso me incomoda demais a insistente mania que muita gente tem de transformar o quadrinho nacional em um mundo habitado de super seres. É gente demais querendo ser Frank Miller e quase ninguém querendo ser Flávio Colin.

Então quando pego um gibi desencanado, cheio de bom humor e falando português de um jeito que a gente entenda, comemoro. Não é coisa que acontece todo dia, mas felizmente tem acontecido cada vez mais nos últimos tempos.

vigor_mortisEsse é o caso de Vigor Mortis Comics (Zarabatana Books, R$ 30,00).

Sei, latim e inglês no título…

Mas não se enganem, Vigor Mortis está lá na capa porque é o nome da Cia de Teatro Vigor Mortis. Já o Comics do título, bem, isso é só uma das muitas piadas do gibi e faz referência direta aos pulps de terror que embalaram milhares de moleques nas décadas de 40 e 50.

Vocês podem estar se perguntando: Companhia de Teatro? Gibi? Mas que troço é esse?

Explico: Vigor Mortis é o nome de um grupo teatral curitibano, que se inspirou no Tréâtre du Grand Guignol parisiense ( o clássico Teatro dos Horrores ) e que há 14 anos brinda o público com encenações banhadas de sangue e bom humor, com uma estética que se utiliza, se inspira e abusa de elementos próprios dos quadrinhos. Uma mistura doida de teatro, quadrinhos e cultura pop, sem perder a identidade nacional.

Se ficasse só no teatro já seria bom. Mas eis que Paulo Biscaia Filho, dramaturgo e diretor do grupo, resolveu transformar seus seres cênicos em carinhas bidimensionais, com balões simulando falas, sarjetas, quadros e recordatórios…

Não se trata de uma adaptação de uma das peças do grupo, mas sim de uma extensão às montagens, do aproveitamento das personagens numa outra forma de arte.

E o resultado é surpreendente, divertido e, por mais estranho que possa parecer, teatral! Seus zumbis, vampiros (no caso uma vampira com uma dúvida do tamanho da Transilvânia) e demais neuróticos de plantão se sentem bastante à vontade no gibi, como se desde sempre estivessem por ali.

A impressão que se tem ao ler o gibi é que alguma desgraça nuclear ou radioativa atingiu o teatro em que a Companhia ensaiava, transformando os atores nas personagens que representavam e que todos juntos – após um daqueles dias pesados de trabalho – resolveram sair pela noite curitibana pra tomar uma cerveja, arrumar uma trepada, matar um ou outro abusado e comer alguns cérebros.

E para isso Biscaia contou com o talento de José Aguiar e DW, velhos conhecidos de quem curte quadrinhos nacionais e também colaboradores do grupo em diversas encenações. O casamento (ou funeral, dependendo do humor de quem lê) é perfeito.

A revista é toda em preto, branco e… vermelho! A mistura valoriza tanto a temática quanto o traço estilizado de Aguiar e a tn_280_651_Vigor_Mortis_1_14-04beleza plástica de DW.

Um gibi imperdível, com gosto de gibi de verdade, pra se ler num fôlego só.

Vigor Mortis desencavou uma tradição dos quadrinhos há muito esquecida. Sem dúvida alguma um tapa na cara das pretensiosas produções da Brodway, digo, da maior parte da produção nacional. Principalmente se acompanhado, claro, de uma boa dentada no cérebro.