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domingo, 4 de setembro de 2011

Histórias Inesquecíveis: A Melhor História do Homem Aranha

Publicada originalmente no Quadro a Quadro em 03/04/2011

HomemAranha19Você provavelmente nunca ouviu falar de Tim Harrison.

Ele não tem nenhum superpoder, não voa e não virou o inimigo mortal de ninguém. Mas ele é o responsável por uma das melhores histórias do Homem Aranha em todos os tempos.

Buscando na memória? Vou ajudar: Roger Stern foi o roteirista e Ron Frenz desenhou.

Não lembra? Não faz mal, você precisaria ter mais de 35 anos para lembrar.

Mas talvez você já tenha trombado com algum scan na internet ou com a republicação da Panini de alguns anos atrás. Ou talvez o nome da história ajude: “O Menino que coleciona Homem Aranha”.

Se você tem a minha idade e gostava do Cabeça de Teia na adolescência eu tenho certeza de que está sorrindo agora, com saudades de um tempo em que os quadrinhos norte-americanos começavam a amadurecer mas ainda não tinham se tornado essa confusão de mundos paralelos e sagas sem fim, que se emendam umas nas outras e duram anos.

Já se você tem metade da minha idade, deixa eu te contar uma história…

Eu tinha uns 12 anos naquela época. Eu ainda não sabia, mas aquele era o último ano da minha infância tal qual eu conhecia.  Logo depois estaria empregado, estudando a noite, namorando e todas essas coisas chatas que levam nossa vida pra um caminho sem volta. O estranho que quanto mais trilhamos esse caminho menos gibis encontramos espalhados pelo chão.

Mas naquele tempo eu ainda não pensava nisso.  Ficava contando os dias para que os gibis que eu colecionava chegassem  às bancas. Os tempos eram difíceis, meu pai estava desempregado e minha mãe trabalhava como ajudante no boteco do meu tio, já eu puxava lata de concreto nos finais de semana como auxiliar de pedreiro com um outro tio meu.

Puxava lata era modo de dizer, eu não tinha forças para tanto. Mas o pouco que fazia me rendia uns cruzados por mês. Não devia ser muito, no máximo uns cem reais em valores de hoje, mas servia pra ajudar a botar comida na mesa. Daquele dinheiro eu tinha autorização pra comprar 02 gibis: o Homem Aranha e o Incrível Hulk, os antigos formatinhos da Abril.

Então imaginem minha ansiedade.

A banca de jornal ficava a umas cinco quadras de casa. O chato é que eu praticamente lia o gibi todo no caminho de volta e tinha que ficar esperando um mês inteiro até o próximo.

Mas naquela tarde eu cheguei em casa chorando. Minha mãe, preocupada, perguntava o que tinha acontecido.

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Essa foi a minha resposta e acho que ela nunca soube o motivo do meu choro. Talvez descubra agora, se ler o Quadro a Quadro: naquela tarde eu chorava pelo Tim.

Tudo bem. Eu sou capaz até de chorar com uma receita de bolo, se ela estiver bem escrita. Mas “O Menino que coleciona Homem Aranha” foi a primeira história que me levou às lágrimas.

Exagero? Definitivamente não.

Após uma matéria do Clarim Diário, o amigão da vizinhança fica sabendo de um moleque chamado Timothy Harrison, um fã incontestável do Cabeça de Teia, que coleciona tudo o que diz respeito ao herói, desde os tempos de luta livre na TV.

O nosso herói resolve então visitá-lo.

Simples não é? Então por que tanta choradeira?

Porque essa é uma das histórias mais sensíveis que já li. Nós, fãs de quadrinhos, sempre tivemos dificuldades em aceitar a realidade. Quando crianças, não raro somos surpreendidos com pensamentos como: e se ele existisse de verdade?  E se eu fosse o Capitão América? E se a Mulher Maravilha fosse minha namorada? E se eu pudesse voar?

Exatamente por isso, um garoto que colecionava tudo do Homem Aranha era praticamente nosso irmão.

Poderia estudar na nossa escola e juntos discutiríamos as melhores histórias do Aranha, ou então brincaríamos com as clássicas (sem) action figures da Gulliver.

Mas calhou de Tim ser um personagem de história em quadrinhos e calhou de sair naquele HA19, no já distante ano de 1985.

Tim inevitavelmente cairia nas graças daqueles moleques que liam o gibi do Homem Aranha. Ele era praticamente a encarnação do que gostaríamos de ser.

Hoje, quase 30 anos depois, ainda lembro nitidamente da história, suas falas, os suvenires de Tim, a emoção legítima e o fim impiedoso (como impiedosa muitas vezes é a vida).

E é por isso que a história se tornou clássica. Apresentou-nos à realidade. Um choque para aqueles moleques acostumados a ver o Aracnídeo escapando das mais aterrorizantes situações. Naquela história, o Homem Aranha não venceu.

A quem não leu a história, Tim jamais chegou à idade adulta, ficou imortalizado naquele corpo de guri no início da década de 80.

E a quem leu, bem…

Quem leu jamais se esqueceu de Timothy Harrison.

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“O menino que coleciona Homem Aranha” foi publicada originalmente no Brasil em janeiro de 1985, na revista Homem Aranha nº 19, pela Editora Abril, e republicada pela Panini em 2007, no especial Marvel -40 Anos no Brasil.

sábado, 6 de agosto de 2011

Histórias Inesquecíveis: Caminhos escuros, sonhos que terminam e pessoas que se recusam a deixar de sonhar

imagesCA9U0FLLQuando crianças, somos capazes de coisas incríveis.

Faz parte da natureza humana a invenção, a criatividade, o sonho. E é nas crianças que isso se revela em sua forma mais pura e devastadora.

A imaginação de uma criança é capaz de tudo. E se o tudo não for o suficiente ela é capaz de ir além.

Mas crescemos e em algum momento de nossas vidas algo se quebra em nossa mente infantil. É geralmente o momento em que também começamos a crescer.

Algo sutil, que quase nunca podemos precisar quando e onde acontece. Mas é ali que iniciamos a demolição de todo o mundo idílico de nossa imaginação e começamos a nos tornar adultos.

E essa é uma das vantagens de envelhecer. A memória se apura com a idade e coisas vem à tona. Geralmente as coisas que merecem ser lembradas.

17 de setembro de 1985. Falando assim parece apenas uma data. Era uma terça feira à noite e eu tinha acabado de completar 13 anos. Lembro muito bem porque tinha andado a pé 05 km até a casa da minha tia, no outro lado do morro que é a Vila Formosa, zona leste de capital paulista.

Não tínhamos mais nenhum dinheiro em casa e minha irmã mais nova precisava de leite na manhã seguinte. E mais: ela completaria quatro anos naquela manhã e minha mãe queria fazer um bolo, então precísavamos mesmo daqueles litros de leite.

Eu, apesar da pouca idade, trabalhava como servente de pedreiro aos finais de semana com meu tio. Tinha ido receber os trocados que recebia como paga.

Até aí tudo bem, estava acostumado com o caminho e aos 13 anos realmente não me importava de andar toda aquele distância por algo que, em valores de hoje, não devia ultrapassar uns 20 contos. Ainda mais porque eles salvariam o parabéns a você da Foo (esse é o nome dela, tem outro na certidão de nascimento, mas raramente o usamos).

A merda toda aconteceu na volta. Minha memória me trai aqui, não consigo lembrar o horário, mas já era noite.

E de repente tudo ficou ainda mais escuro. A energia elétrica tinha ido pro saco.

Já estava no meio do caminho, no pé do morro onde termina a Vila Matias e começa a Vila Formosa. Foi quando caí na besteira de olhar para trás. Não era uma quadra ou duas sem energia, era tudo até onde a vista alcançava. Estávamos (e isso eu só soube depois) no primeiro grande blecaute que o país sofreu.

Se os mais novos acham assustador o blecaute de 2009, imaginem num tempo em que as ruas eram habitadas apenas por ônibus e um ou outro taxi, onde quem tinha um fusca ou uma brasília era abastado e praticamente só os hospitais tinham geradores próprios.

Quando as pessoas que estavam nas ruas perceberam a extensão do apagão, começaram a correr. Alguns gritavam.

Na esquina, do outro lado da Avenida João XXIII, alguém armado com um pedaço de pau começou a espancar um orelhão enquanto gritava palavras de ordem contra o então presidente José Sarney.

Enfiei a mão no bolso e segurei firme as notas da paga. Corri o mais rápido que pude e não parei até chegar em casa.

Nunca em minha vida senti tanto medo como naquela noite. Medo do escuro, medo de homens que saíam das sombras, medo de não ter leite no dia seguinte, medo de estragar tudo.

Naqueles  milhares de metros em carreira, deixei pra trás muito mais do que a escuridão. Deixava ali também a minha infância e a minha capacidade de sonhar.

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Muitas coisas contribuíram para que esse blog existisse. Já falei sobre elas aqui, mas me esqueci de um fato banal, acontecido há cerca de dois anos, que na época me deixou bastante contente mas que havia permanecido escondido nessa coisa maluca chamada memória e que só agora vem à superfície. Algo extremamente importante nessa minha caminhada nos quadrinhos.

Estava num sebo e começava a recobrar o gosto por colecionar esse troço a que chamamos de gibi quando encontrei Os Caçadores de Sonhos, de Neil Gaiman e Yoshitaka Amano (Editora Conrad, 2000).

Os mais puristas podem dizer que não se trata de quadrinhos. E, claro, estão cobertos de razão. Os Caçadores de Sonhos é um conto ilustrado. Mas é um conto de Sandman.

Quero que me digam um único cara que colecione Sandman e não o tenha em sua estante. Todos os fãs da epópeia do Senhor dos Sonhos conhecem a edição e são unânimes em afirmar que é uma das coisas mais lindas da saga.

Não a li de imediato. No mundo dos quadrinhos existem coisas que não valem nem uma leitura rápida num ônibus parado no trânsito. Outras, entretanto, não merecem ser lidas em tais condições. O livro de Gaiman e Amano pertence a segunda categoria.

Aguardei pacientemente 03 dias até que chegasse a sexta feira. Por volta das onze da noite minha esposa foi se deitar, ela trabalha aos sábados, eu não. Desliguei a TV, sentei-me no chão da cozinha, esquentei uma xícara de café e acendi um cigarro.

A leitura terminou as três da manhã. Muita coisa aconteceu naquele meio tempo.

Para quem ainda não conhece a história, Os Caçadores de Sonhos é baseado em um antigo conto japonês, traduzido para o Ocidente como A Raposa, o Monge e o Mikado dos Sonhos. Melhor seria dizer que se baseia em vários  contos antigos, já que é um conto folclórico e, como tal, possui várias versões que se diferem entre si nos detalhes, nomes e lugares, mas que são semelhantes em sua essência. O conto fala sobre uma raposa que se apaixona por um solitário monge. No caminho desse amor impossível encontraremos um poderoso e atormentado feiticeiro que fará de tudo para encontrar a paz, inclusive matar.

É surpreendente saber que a história existe há centenas, talvez milhares de anos, pois as coincidências com o mundo criado por Gaiman para sua versão de Sandman não são poucas.  O que prova a tese que as histórias estão por aí, assim como os pensamentos, basta que alguém entre na mesma sintonia e elas acontecerão.

E é essa sintonia que temos a rara oportunidade de presenciar na obra de Gaiman e Amano.

Não vale aqui contar mais sobre a história. Ela é simples e desconfio que uma rápida busca no Google possa entregar muito mais do que eu ousaria. Vale a pena sim contar um pouco do que ela revela.

Os Caçadores de Sonhos trata, principalmente, de onde até o amor pode chegar.

A raposa começa sua história tentando enganar o abnegado monge. Um ardil, uma trapaça para corromper uma alma, afinal, as raposas, em toda a história da humanidade, em milhares de contos de fadas, sempre foram associadas a astúcia e ao orgulho.

Mas o caráter dúbio da raposa, tantas vezes contado em prosa, não foi esquecido no conto japonês. Como na vida, o tiro sai pela culatra e a raposa, antes sedenta por ludibriar o monge, percebe suas qualidades e se apaixona.

E aí entra o talento narrativo de Gaiman e a explosão visual que são as ilustrações de Amano. Não é incorreto dizer que o inglês e o japonês conseguiram a façanha de traduzir para nosso tacanho e pragmático mundo ocidental as sutis metáforas tão comuns nas milenares histórias orientais.

Afinal, somos meio cegos e limitados nesse sentido, como prova o processo de construção da civilização ocidental, pródigo em destruir tudo aquilo que não pode ser encaixado em nossa egoísta visão de mundo, inclusive os sonhos.

E são essas sutis metáforas que escondem a principal mensagem do conto: amar vale toda a viagem, viver e morrer por amor é apenas uma consequência natural da vida, pois tudo nasce, cresce e morre.

No fim, ao se cruzar aquela linha obscura entre a vida e a morte, independente do que digam as centenas de crenças religiosas, se haverá ou não um paraíso dos justos ou um julgamento final, o que fica são os sonhos que se distribuiu pela vida e o amor que sentiu por si mesmo e pelos outros.

A raposa, mesmo astuta, e o Monge, mesmo bondoso, aprendem isso da pior e da melhor maneira. E sofrem sim seu julgamento. Não o julgamento do Apocalipse, com seus terríveis anjos, trombetas e livros sobre nossos dias de vida. O julgamento mostrado em Os Caçadores de Sonhos é muito mais sutil e cheio de significado. O que é pesado ali é o que somos e o que pensamos, não o que fizemos ou deixamos de fazer.

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Conceito complicado num mundo em que somos comandados pelo relógio e tememos mais o desemprego e o carinha do farol do que o Apocalipse.

Mas claro que o amor tem o seu antagonista. Nossa pragmática obviedade aponta imediatamente para o ódio.

E aí somos surpreendidos novamente pela sabedoria oriental. Não é o ódio o principal vilão dessa história, mas sim o medo. Quem ama nada teme, nem a vida, nem a morte. Já quem tem medo nunca encontrará o amor e, por analogia, jamais poderá viver ou morrer plenamente.

E o medo é personificado no poderoso Mestre de Yin-Yang.

Rico, temido, conhecedor de profundos segredos sobre o mundo dos vivos e dos mortos mas atormentado pelo medo.

E é o seu medo e sua incessante busca pela paz que o fará encontrar o monge e a raposa.

No conflito interno existente em cada um dos personagens, somos pouco a pouco transportados para um mundo aparentemente fantasioso, habitado por seres mágicos e espíritos atormentados.

Mas é esse mundo de fábulas que reflete muito daquilo que vivemos e sentimos nesse moderno século XXI. Sobretudo o medo tão comum em nossa sociedade e essa inexplicável incapacidade de amar as coisas, que nos leva a uma espiral violenta contra tudo e todos, atacando outros seres humanos simplesmente por acreditarem em outro deus, por possuirem outra cor de pele ou por gostarem de coisas diferentes daquelas de que gostamos.

Uma irracionalidade que nos leva a não mais ter fé na humanidade, a enxergarmos a miséria como algo comum e o ódio como virtude.

Nesse sentido, o desfecho do belíssimo Os Caçadores de Sonhos guardam um importante ensinamento. Uma lição que envergonhará aqueles que, como eu, encaram a literatura como reflexo da vida. A aqueles que acham que um livro (ou um gibi) não é mais que um monte de páginas costuradas ou grampeadas, Os Caçadores de Sonhos será um livro incompreensível.

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Nunca poderemos precisar exatamente o momento em que deixamos de lado a beleza do mundo infantil e entramos nessa coisa maluca e egoísta a que chamamos mundo adulto. Eu escolhi o dia 17 de setembro de 1985 porque foi essa data que minha traiçoeira memória resolveu gravar. Com certeza meus sonhos começaram a morrer antes daquele blecaute. E só foram definitivamente enterrados algum tempo depois.

Mas é uma data tão boa quanto qualquer outra.

Assim como aquela madrugada, há cerca de dois anos, quando percebi que os sonhos e a beleza de se acreditar neles haviam voltado ao meu cotidiano.

E agradeci por existirem homens que se recusam a deixar de sonhar e produzem coisas como esse Os Caçadores de Sonhos.

Um livro capaz de despertar reflexões profundas sobre como vivemos e até onde queremos (ou estamos dispostos) a chegar.

Uma história sobre escolhas difíceis entre opções simples. Sobre o que fazer quando temos que nos decidir se escolhemos viver e amar ou se nos esconderemos o resto de nossos dias entre as franjas do medo.

Uma lanterna para as escuras estradas da alma.

Neil Gaiman e Yoshitaka Amano, munidos apenas de seus chouchins, iluminaram meu caminho de volta daquela tenebrosa noite de setembro de 1985.

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domingo, 19 de junho de 2011

Histórias Inesquecíveis: Aberrações no Coração da América

capa

Comprei Aberrações no Coração da América (Devir Livraria – 2005) por um único motivo: o nome de Steve Niles na capa.

Estava num sebo e o preço era ótimo. As belíssimas ilustrações de Greg Ruth pesaram bastante na decisão. Mas era o que o nome de Niles me lembrava o que eu queria ver na história. O cara havia criado a melhor história de vampiros que eu havia lido em muito tempo. Seu 30 Dias de Noite é uma paulada. Esqueçam o filme. Apesar de uma adaptação razoável, não chega nem aos pés do gibi feito em parceria com Ben Templesmith.

E daí eu cruzo com um gibi escrito pelo mesmo cara, com a palavra “Aberrações” no título…

Pois bem. Não era nada do que esperava. Nada de vampiros, nada de monstros como o título sugeria.

Mas o que encontrei foi muito melhor…

A história toda começa numa cidadezinha de fim de mundo dos Estados Unidos, quando, anos antes, várias mulheres deram à luz ao mesmo tempo.

Mas algo soava horrivelmente errado. Seus filhos não eram normais, eram disformes, estranhos. A decisão tomada foi o assassinato daqueles horrendos bebês.

Mas nem todos morreram, alguns foram criados às escondidas, em porões e celeiros, numa situação sub humana. E agora eles estavam crescidos, e loucos para conhecer o mundo lá fora…

E aqui terminamos o que vou contar sobre o enredo da história. Mais que isso já estaria fazendo um resumo, não uma resenha.

Vamos falar das coisas que tem ali dentro o do que elas revelam.

prev_aberra_1gO roteiro aparentemente aponta para aqueles filmes de ficção científica da década de 50, recheados de monstros vingativos e sem qualquer explicação plausível para a origem de tão horrendas criaturas.

Realmente, o roteiro de Niles não explica absolutamente nada sobre as terríveis deformações das crianças ou o motivo delas terem nascido ao mesmo tempo.

A intenção ali não é fornecer aos leitores qualquer dado científico mentiroso que justifique o surgimento das ditas “aberrações”. A história é o que é.

A metáfora é muito mais poderosa. Trata do rito de passagem entre a fase infantil e a adulta e como as coisas podem dar terrivelmente errado. A relação de amor e descoberta vivenciadas por Trevor (o irmão mais velho) e Will (o mais novo e uma das crianças indesejadas) é delicada e trágica. Nesse sentido, Aberrações no Coração da América é uma história sobre a vida e seu aprendizado, com amores e decepções típicas da adolescência.

Mas a história também estabelece uma sutil relação com renascimento da nação norte americana pós grande depressão, se aproximando assim do romance Homens e Ratos, de John Steinbeck, de 1937. As próprias características físicas e psicológicas de Trevor e Will nos remete aos personagens Lennie e George, protagonistas do romance.

prev_aberra_4gÉ a mentalidade do velho sistema de vida norte americano condenando-se a uma morte lenta, à medida que uma nova, poderosa e irresistível vivacidade tomava conta do povo estadunidense. Essa sutil relação é exteriorizada no discurso do jovem Trevor para xerife Tuck, já nas últimas páginas do gibi, e no trágico destino deste pelas mãos de Bo Clague, pai de Maggie e Roy, outras duas crianças da trama.

Mas Aberrações no Coração da América fala principalmente da intolerância. Ao tornar alvo do ódio crianças inocentes apenas porque são diferentes daquilo que almejamos, Niles cria uma ferrenha e mordaz crítica ao racismo, qualquer que seja a maneira em que ele se apresente.

Num tempo em que fechamos os vidros quando vemos um guri no farol ou – pior – o pré julgamos um assaltante ou assassino sem ao menos lhe oferecermos qualquer chance de um destino diferente, num tempo em que cobramos segurança pública mas não nos interessamos pela qualidade da educação formal fornecida a aquelas crianças cujos pais não podem pagar a irreal mensalidade de um colégio particular, Aberrações no Coração da América deixa de ser um gibi ( na acepção pejorativa que normalmente dão ao termo) e se torna uma mensagem poderosa e trágica.

As crianças nos faróis, com seus mal aprendidos malabares, não pediram a situação que lhes foi imposta por séculos de corrupção e mau uso do erário público. Seus pais, seja qual for a culpa que carregam, são inocentes em pelo menos uma questão: a de não conseguirem quebrar padrões de comportamento que se repetem por gerações e que agora se transmutam em truques circenses desesperados por um trocado, por um momento de atenção.

E nesse sentido, Aberrações no Coração da América fala muito mais sobre o que somos do que uma simples história em quadrinhos poderia sugerir.

Um gibi obrigatório, gostemos de quadrinhos ou não.

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Esta resenha foi escrita ao som de Um Labirinto em Cada Pé, de Romulo Fróes, e Feito pra Acabar, de Marcelo Jeneci. 

Para ler outras resenhas minhas ou saber o que rola no mundo dos quadrinhos acesse o Quadro a Quadro.