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quarta-feira, 13 de julho de 2011

À Barca!

AutoBarcaInfernoEm dez anos de Teatro Popular União e Olho Vivo, vi pelo menos umas vinte adaptações – amadoras e profissionais – de obras do nosso dramaturgo, César Vieira.

Aos que estão perguntando: sim, o mesmo que processou a Conrad e os autores de Chibata por plágio. Pois é, faço resenhas de quadrinhos, estou produzindo um roteiro para a Editora Nemo, mas também sou ator de teatro e, por acaso, participei da montagem de João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata desde o rascunho do texto. Mas isso é matéria para uma futura postagem.

Voltando ao assunto, vi excelentes adaptações de nossas peças, outras nem tanto. A explicação não é simples mas é clara.

Apesar da excelência do texto, uma montagem – por mais fiel que seja – traz em seu bojo a visão do diretor ou produtor, a performance dos atores, o talento do cenógrafo, do iluminador e do figurinista e mais um monte de coisas que envolvem mais uma centena de variantes que podem influenciar o trabalho de mil formas diferentes. E por aí vai…

O que fica? O resultado, que pode ser bom ou ruim.

A mesma lógica se aplica às adaptações de peças ou de obras literárias para qualquer outra mídia.

Na história do cinema temos um sem número de exemplos de ótimas e péssimas adaptações. Na história da televisão também. No teatro, quando adaptam obras que não em seu formato original, a história se repete.

Nos quadrinhos não poderia ser diferente.

Mas ao contrário de outras mídias, o aquecimento do mercado de quadrinhos nacionais e o consequente aumento de adaptações literárias por essa mídia, sintoma direto do recente interesse do governo na compra de produtos de tal segmento, parece despertar o preconceito daqueles que as atribuem a uma suposta desmoralização da literatura.

Na minha opinião, tal preconceito faz parte de um sentimento muito maior, que pretende colocar os quadrinhos numa categoria desonrosa entre as diversas formas de expressão e arte.

O fato, que convenientemente é esquecido por quem segue essa linha de pensamento, é que uma história em quadrinhos não é um livro e não pode ser tratado como tal. Em muitos aspectos é superior e em outros muitos, inferior à literatura.

Simplesmente porque não é literatura. São histórias em quadrinhos e possuem características e signos próprios. Assim como um texto de uma peça não é a peça em si até ser encenada (seu veículo original), uma adaptação em quadrinhos de uma obra literária não é a obra, mas uma interpretação dela para um outro meio.

E é aí que caímos num puta dum avião apertado, na última fileira (aquela que não permite que você recoste o banco), numa viagem de São Paulo a Salvador.

É sério, qualquer um enlouqueceria. Duas horas de viagem, sem o menor espaço para ligar o notebook e com o ipod serenamente repousado no colo de minha esposa, seis fileiras à frente. Sim, porque eu sou um viciadinho em coisas tecnológicas. Mas as uso para entretenimento e conhecimento, porque assim é o mundo hoje. O que não me impede de ler um bom livro, diga-se.

Mas também não tinha nenhum bom livro por perto.

Então me lembrei que havia contrabandeado dentro da bolsa do note o Laudo. Não ele literalmente, é claro. Refiro-me a Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, adaptado por Laudo Ferreira (Editora Peirópolis, R$ 35,00).

Como sempre faço, li o texto da quarta capa, as orelhas e a introdução. Nunca deixo de fazer isso e sempre aconselho as pessoas que não o fazem a adquirirem o hábito. Esses textos, cada vez mais presentes nos álbuns de quadrinhos, trazem pistas preciosas sobre o que você está prestes a ler.

AutoBarcaInferno1

Começada a leitura, não precisei de mais de cinco páginas para xingar o Laudo de tudo o que é nome. Como assim texto original em português do século XVI? Já não basta essa senhora, dormindo desaforadamente com o banco reclinado sobre o meu joelho, esse ármário ao meu lado (coitado, como se o cara tivesse culpa de ter, sei lá, uns 03 metros de altura) e eu ainda vou ter que ler um gibi num português que não é praticado há pelo menos 200 anos?

Mas eu tinha nas mão um gibi do Laudo, o mesmo cara que teve a ousadia de adaptar a vida de Cristo nos dois belíssimos volumes de Yeshuah. A mesma história, contada e repisada milhares de vezes, mas que ele contou de uma maneira totalmente inesperada.

Uma história que me emocionou como poucas coisas que li na vida.

Ainda restava cerca de uma hora e meia até Salvador…

Decidi ver até onde o Laudo iria me levar dessa vez. Auto da Barca do Inferno em texto original? Vai pra mais de vinte anos que li isso. Resolvi confiar no Barqueiro, digo, no artista.

O Neriney Moreira – um dos fundadores do Teatro União e Olho Vivo em 1966 e que está conosco até hoje – sempre nos ensinou:

“Um texto de teatro possui uma musicalidade própria. Se você achar o tom, poderá fazer o que quiser com ele”.

Um sábio ensinamento, para quem lê textos teatrais ou – como acabei descobrindo – para quem lê qualquer texto.

E para se ler Auto da Barca do Inferno isso foi fundamental. O segredo está na capacidade individual de imersão do leitor. Quanto mais ele “entrar” dentro da história, mais fácil será o entendimento.

Afinal, por mais séculos que separem o autor português do gibi do Laudo, ainda é língua portuguesa.

Foi só criar vozes distintas na minha cabeça (sempre tive facilidade com isso) e começar a viagem.

E senhores, eu posso garantir, ler a Barca num avião que não parava de sacolejar, na situação em que eu me encontrava foi uma experiência inesquecível.

De um lado o próprio diabo:

- À barca, à barca, boa gente, que queremos dar a vela!

E do outro a aeromoça com aquele sorriso demoníaco:

- O senhor aceita uma balinha?

E de repente a viagem começou a ficar muito divertida.

A forma como Laudo recriou o texto de Gil Vicente é assombrosa. Para quem ainda não conhece a história, temos um cais no fim do mundo, onde estão atracadas duas barcas. Elas estão ali para dar passagem aos recém falecidos. Uma das barcas, cujo barqueiro é o próprio demônio, levará os malditos, os impuros, os ladrões e assasinos, as prostitutas, os corruptos, os… bem vocês já entenderam, né? Pois bem, essa primeira barca levará tais desafortunados ao inferno. A segunda barca – a da Glória – tem como barqueiro um Anjo do Senhor, e embarcará aqueles que são dignos do paraíso celestial.

Todo o sarcasmo do autor português, que enviava à barca infernal pessoas que existiam de verdade na sociedade portuguesa daquele começo de século XVI, são magistralmente recriadas por Laudo.

A sutil ironia escondida entre uma palavra e outra e entre os diálogos, os momentos de silêncio, os olhares, as investidas do diabo, o contra ponto cômico na trama…

Não há um único detalhe que tenha passado desapercebido por Laudo. Prova inequívoca que uma boa adaptação precisa sim de muito estudo, mas sobretudo, precisa de um olhar artístico diferenciado.

E nisso Laudo fez o papel de um verdadeiro diretor de teatro. E não só dele. Pois se analisarmos o gibi, veremos que Laudo foi também cenógrafo e figurinista, além de diretor de atores de toda a peça. Só não foi iluminador porque no caso das cores utilizadas contou com o também talentosíssimo Omar Vinole, velho parceiro de outros mares.

E soube como niguém distribuir um texto pesadíssimo pelas mais de 40 páginas da adaptação. Não por acaso, lá pela vigésima página ainda que inconscientemente, acabei me vingando do ármario ao meu lado (coitado) e da dorminhoca à minha frente.

Começou baixinho, quase imperceptível. E antes que eu me desse conta, já estava recitando o texto de Gil Vicente em voz alta! O cara do meu lado começou a me olhar como se eu tivesse alguma doença contagiosa e inexplicavelmente diminuiu o tamanho de seus ombros. A dorminhoca que a essa hora já estava acordada por conta daquele negócio que chamam de lanche (“aceita um hot-dog senhor?”) não conseguiu mais dormir.

E eu me divertindo como nunca.

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, por Laudo Ferreira é tudo o que uma adaptação pode ser e é ainda mais: é uma história de quadrinhos de verdade, com quadros, balões, sarjetas, recordatórios, enquadramentos, onomatopéias…

Não pretende substituir o original, mas sim mostrar de uma forma diferente, todo o seu valor e suas nuances.

Detalhe Auto da BarcaE num tempo em que cada um diz o que quer, inclusive taxar como criminosas adaptações feitas por profissionais competentes e honestos, que estão apenas aproveitando uma oportunidade de mercado, Auto da Barca do Inferno é uma aula de quadrinhos e das possibilidades ilimitadas desse meio.

Justamente por não ser literatura, mas sim uma coisa bem diferente.

 

Para conhecer mais sobre a obra de Laudo Ferreira, acesse o Blog Mamão.

Para ler a matéria Os quadrinhos podem matar a literatura, de autoria de Luís Antônio Giron e publicada no site da Revista Época, clique aqui.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Yeshuah

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Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, Vila Carrão, São Paulo. Ainda não eram nove horas da manhã de um domingo qualquer do começo de 1984. Cerca de 150 pessoas olhavam para aquele jovem franzino. Alguém ajeitava o microfone para aquela pouca altura.

Ele percebeu alguns olhares curiosos. Uma criança fazendo a leitura do Evangelho? Aquilo não seria muita ousadia?

O Padre Emilio decidira, alguns meses antes, aproveitar melhor aquelas jovens ovelhas das aulas de catecismo. Havia até permitido que alguns efetuassem as 1ª e a 2ª Leituras. Mas aquele era o Evangelho, a Leitura que precede à Homilia.

E uma criança o leria.

O moleque olhou a sua direita. O Padre Emilio lançou um olhar de cumplicidade. Na quinta fileira a sua esquerda enxergou sua mãe, ela lhe sorria orgulhosa. Sentada à sua frente, sua irmã torcia com aqueles olhos quase negros. Aquilo era tudo o que ele precisava.

– Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, capítulo 3, versículos 13 a 19. “Jesus subiu a montanha e chamou os que ele quis; e foram a ele. Ele constituiu então doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com poder de expulsar os demônios (…)”.

Foi a primeira vez que enfrentei uma platéia e fazia aquilo em nome de Deus. Eu tinha 11 anos e acreditava nEle de todo o meu coração.

Nunca tive problemas em falar em público. Sempre tive medo – tenho até hoje – mas isso nunca me impediu. O desempenho naquela leitura, as sutis nuances vocais e a teatralidade, me tornaram uma espécie de leitor oficial dos Evangelhos.

A beleza daqueles textos me levou a uma devoção cega e um comprometimento sincero. Fiz o Catecismo, Perseverança e o Crisma. As leituras em público me levariam ao teatro cinco anos depois. E o Teatro me tiraria definitivamente da Igreja Católica em 1992.

Tinha 21 anos e estávamos trabalhando num Encontro de Jovens. Haviam pessoas do Brasil inteiro. Na programação constavam 05 intervenções teatrais, todas elas com temáticas no mínimo contestáveis. Mas éramos jovens, cheios de energia e estávamos imbuidos dos ensinamentos daqueles padres torturados ou mortos durante o Regime Militar.

Após a 3ª intervenção – uma simulação da Guerra de Canudos – fui procurado por um dos padres que organizavam o evento. Lembro até hoje de suas palavras exaltadas:

- Estamos aqui para mostrar a Palavra de Deus a esses jovens, não para lembra-los da miséria humana. Não quero mais apresentações assim.

Peguei minhas coisas e saí. Só voltaria a igrejas para os casamentos de minhas irmãs e batizados de meus sobrinhos. Ou para olhar os santos, mas isso fazia pela arte, não pela Fé.

Aquele episódio criou em mim uma repulsa sistemática às Instituições Religiosas e comprometeu sobremaneira minhas crenças.

yeshua1Talvez por isso não tenha comprado Yeshuah: assim em cima assim embaixo, de Laudo Ferreira (e arte finalizado por Omar Viñole), na época em que foi lançado pela Devir Livraria.

Mas confesso que as críticas me deixaram curioso. Ainda assim não comprei.

E a história de Jesus de Laudo teve seu segundo volume lançado no ano passado (Yeshuah: o círculo interno o círculo externo). Quase fui no lançamento, mas algo me impediu.

Mas tem cada coisa que acontece na vida da gente…

Na semana passada Deus resolveu mandar novo dilúvio nessa impermeável capital paulista. Justamente na semana em que voltava de férias. Duas linhas de trens paradas, o que lotou o metrô e o fez funcionar em contingência por motivos de segurança, as principais vias de acesso para as zonas Leste e Norte alagadas, zona Oeste inundada em vários trechos. Milhares de paulistanos simplesmente não conseguiam voltar às suas casas.

Desci até a estação de metrô República e o intervalo entre um trem e outro era de cerca de dez minutos. Não havia lugar na plataforma. Assim como não rezo, por uma questão de coerência resolvi também não ficar de mal com Deus e preferi culpar o prefeito e o governador…

E me aproveitei da situação, é claro, e subi pra HQMix, que tava ali do lado.

Não sei por quê. Não me perguntem pois não tenho uma resposta razoável. Sei que saí do Gual com os dois volumes de Yeshuah. Simplesmente resolvi compra-los.

yeshuah2Mas Laudo não me dobraria tão fácil. Não a mim. Comprei, mas não leria…

Três dias depois saí apressado de casa e peguei a mochila errada, por acaso a mesma que levava no dia do tal dilúvio. Claro que nessas esqueci em cima da mesa o gibi que estava lendo. Pra piorar, o trânsito tava um caos. Mas o ônibus estava vazio e fui sentado.

E eu sempre leio no ônibus. Nem lembrava mais o que tinha dentro da bolsa, então abri e vi os dois volumes de Yeshuah. Aquilo só poderia ser uma piada de alguém lá de cima.

Comecei a leitura. Reli seis vezes as duas primeiras páginas, sem acreditar no que lia. Com apenas uma dúzia de quadros eu já sabia que tinha pela frente um gibi excepcional. Doze quadros com um poder narrativo quase hipnótico.

Será que minha teimosia tinha me privado por tanto tempo de um bom gibi? Tudo bem, não seria a primeira vez mesmo.

À medida que lia, percebi que Yeshuah não era o que eu imaginava. Por mais elogiosas que tenham sido as críticas eu ainda assim esperava um “gibi de padre”.

E o que recebi foi uma história como poucas, escrita com uma sinceridade impressionante e um esmero sem igual.

O Jesus concebido por Laudo não é aquele ao qual estamos acostumados. Definitivamente, pouco tem a ver com as representações massivamente difundidas no mundo ocidental de um rapaz loiro e de olhos azuis.

E não é por menos. Para um melhor entendimento de Yeshuah são essenciais as leituras do prefácio e do posfácio. E posso garantir àqueles que simplesmente ignoram essas partes que sua leitura vai transformar a história narrada no gibi numa experiência muito mais interessante.

A extensa pesquisa de Laudo inclui de tudo um pouco daquilo que foi dito, representado ou estudado a respeito de Jesus, ou melhor, Yeshu, já que os nomes originais em hebraico foram mantidos.

Para chegar a esse Yeshu, Laudo se baseou nos textos canônicos (aqueles que estão na Bíblia, os ditos Evangelhos), nos textos apócrifos (textos sobre a vida de Jesus que a Igreja não reconhece como oficiais), em diversos estudos de historiadores e teólogos e também em concepções artísticas diversas, como o belíssimo filme O Evangelho Segundo São Matheus, de Píer Paolo Passolini (considerado por muitos, inclusive da Cúria Romana, como um dos mais belos e sensíveis filmes sobre a vida de Cristo).

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Essa pesquisa, ao invés de criar uma história confusa, alienígena às nossas crenças (ou a falta delas), trouxe a tona um homem fascinante, que mudou de forma irremediável a história da Humanidade.

Nos trouxe um homem divino, por tudo o que foi e tudo o que transformou.

O primeiro volume compreende o período do nascimento de Yeshu até seu Batismo. O segundo volume mostra os primeiros tempos de pregação. O terceiro volume será publicado neste ano. Não há como estragar a surpresa contando o final, a história já é bem conhecida. O Homem morre na cruz e depois levanta dos mortos, essa parte todo mundo já sabe, resta saber como Laudo nos contará isso.

E a julgar pela forma como contou até agora…

A história é narrada por uma velha senhora. Não é preciso ser carola ou formado em teologia para perceber de quem se trata, mas seu nome ainda não é revelado.

No primeiro volume, o foco principal da história está centrado na figura de Miriam (Maria, mãe de Jesus) e nos adventos divinos que propiciaram o nascimento do Messias. É impressionante como essa primeira parte da história é feminina, materna. Laudo foi de uma felicidade incomum na concepção de sua Miriam, da criança virgem que pariu o Nazareno até a velha mãe (já no segundo volume) Miriam é uma mulher de verdade. Bem diferente daquela figura ensinada nas aulas de catecismo. Sua Miriam sofre, chora, sente raiva e medo. E ama seu filho, mesmo sem entender tudo o que lhe aconteceu.

Seu Yoseph ( José, o pai adotivo de Yeshu) também merece um destaque especial. Laudo criou um homem de seu tempo, com todos os defeitos próprios àquela região e formação cultural e religiosa, onde homens apedrejavam até a morte mulheres adúlteras e pouco contestavam a crueldade de tais atos. Mas ainda assim, esse Yoseph é um homem justo. Um homem bom. Que mesmo na dúvida mostrou-se nobre. E quando já não havia mais dúvidas, fez o que era necessário com coragem incomum.

E finalmente, nas páginas finais do primeiro volume, somos apresentados a Yeshu. Ainda não o conheceremos em sua totalidade, esse prazer foi reservado ao segundo volume.

E é do batismo de Cristo até o final de o círculo interno o círculo externo que somos apresentados a uma das melhores histórias em quadrinhos já feitas sobre Jesus.

O Yeshu de Laudo, como já disse, foi formado a partir de um mosaico de referências das mais diversas fontes. Ao invés de ferir o Jesus mostrado na Bíblia, a concepção do autor só nos faz entender melhor essa figura fascinante. Um homem capaz de transformar todos a sua volta.

Um homem que promove atos insanos a sociedade da época. Atos estranhamente insanos a essa nossa época, que foi moldada à partir de seus ensinamentos.

Um homem forte e doce. Alguém impossível de existir no mundo atual mas ainda assim alguém que você poderia encontrar na próxima esquina.

E se o encontrasse, você o seguiria até o fim do mundo.

Não se trata de um gibi, tampouco de religião. Yeshuah é um poema de amor e fraternidade.

O poder das imagens evocadas por Laudo assombram aqueles que lêem Yeshuah. Do nascimento de Cristo, passando pelo assassinato das crianças por Herodes (Hordus), até o retiro de Yeshu no deserto, o que temos são deleites visuais e momentos de emoção sincera, raras em se tratando de um gibi e mais improváveis ainda se lembrarmos que é uma adaptação em quadrinhos da história mais conhecida de todos os tempos.

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Mesmo em pequenos detalhes, geralmente protagonizados por coadjuvantes, podemos perceber a força das mensagens ali contidas. Da obstinação de Maria Madalena (Miriam Magdalit, essencial à trama) a rudeza de Simão Pedro (Shimon), do desespero de Yoseph diante do vazio absoluto aos olhos cegos de João Batista (Yohanán), nada é gratuito.

Se os Evangelhos fossem despidos de todos os pecados ocorridos na história da Humanidade, tão generosa em desgraças e assassinatos, em deturpação dos ensinamentos ali contidos e em tantas “guerras santas” (como se fosse possível ser santo um ato de ódio), esse Yeshu criado por Laudo numa narrativa gráfica estaria em perfeita harmonia com sua mensagem.

Terminei o 2º volume naquele mesmo dia. Ou melhor, na madrugada já do dia seguinte.

Mas como disse, tem cada coisa que acaba acontecendo com a gente…

Num determinado momento do 2º volume, Yeshu prega a seu povo. Uma cananéia o procura, numa passagem do Evangelho de Mateus bastante conhecida, e implora por sua ajuda.

Foram apenas duas páginas. Duas páginas de uma história que eu lembro de ter lido há muitos anos atrás, quando era jovem e ainda tinha Fé.

Ao terminar de ler a passagem, pela primeira vez em muitos anos, chorei copiosamente.

Não havia tristeza naquelas lágrimas, nem alegria. O que havia era apenas a reação a um momento de pura beleza. Uma emoção verdadeira, daquelas que não necessitam explicações.

Yeshua2Numa fração de segundo, me lembrei daquela primeira leitura, tantos anos antes, e da força da fé que tinha.

Da cumplicidade do Padre Emilio, do sorriso de minha mãe, mas principalmente, dos olhos grandes e quase negros de minha irmã.

E ao menos naquela fração de segundo pude saborear a Fé que julguei para sempre perdida.

Isso, para mim, resume toda a beleza contida nesse Yeshuah.

 

QaQ2Essa resenha também está disponível no Quadro a Quadro, novo site de notícias sobre quadrinhos. Não deixem de acessar.