Eu sou um cara de teatro.
De um tipo bem específico de teatro.
Esqueçam a maquiagem branca na cara, as performances que sempre rolam quando a figura está chapada, seja numa balada ou num batizado, as poses afetadas e aquela voz carregada que mais parece cria do inferno do que garganta de gente de verdade.
Essa fase eu vivi dos 17 aos 27, depois cansei.
Foi justamente quando encontrei o Teatro Popular União e Olho Vivo. Não sabe de quem estou falando? Não esquenta, clica na postagem que fiz sobre o plágio envolvendo o gibi Chibata e você vai entender melhor.
E foi onde eu passei os últimos dez anos da minha vida. Um lugar mágico, onde aprendi praticamente tudo que sei sobre teatro, arte e cidadania.
Por razões pessoais, decidi, lá por novembro do ano passado, que me afastaria do grupo por um tempo. Naquela época – embora eu ainda não soubesse – já estava afundado até o pescoço nos quadrinhos. Um sujeito se encarregaria de colocar o pé na minha cabeça e me afundar de vez, mas eu já chego lá.
Só que foram dez anos de minha vida naquele grupo, correndo a periferia da cidade, viajando o Brasil, sorrindo, chorando, vivendo…
Eu não sairia assim, tão impune.
A verdade é que quase enlouqueci. Naquele galpão do bairro do Bom Retiro, colado no centro velho de São Paulo, está boa parte de minha história e – sem dúvida alguma – muito da alma que penhorei quando decidi ser um artista.
Sou capaz de interpretar um assassino cruel numa cena e, três minutos depois, enquanto o público ainda está tentando processar a carga dramática que acabou de receber, entrar travestido de uma drag bêbada. Consigo fazer uma voz num registro agudo e alterá-lo para o grave dentro da mesma fala. Tenho uma voz potente, raras vezes precisei de microfone em apresentações a céu aberto…
Bela bosta!
Sou ator e quase não consegui escapar de um simples conflito emocional por uma decisão que eu mesmo tomei!
E era nesse pé em que as coisas estavam quando em janeiro, numa visita a Belo Horizonte, conheci pessoalmente o amigo e roteirista Wellington Srbek, com quem já trocava intensa correspondência desde julho do ano passado.
Entre muito bate papo e uma ótima pizza, ele me convidou a participar de uma reunião que faria dali a duas semanas, aqui em São Paulo, com uns caras com quem ele estava querendo trabalhar.
Foi naquela noite que descobri que ele havia acabado de se tornar o editor da Nemo. Como é de hábito, fiquei de boca calada.
Mas estava empolgadíssimo! Meu amigo era agora um editor! Publicaria quadrinhos e tinha acabado de me convidar pra uma reunião secreta, com uns tipos perigosos, armados até os dentes de pincéis e nanquim…
Na data marcada, fui pra tal reunião com a esperança que o Srbek me convidasse pra escrever o texto de introdução de algum álbum. Afinal, por qual outro motivo ele teria convidado um resenhista para a reunião?
Confesso, eu sou uma besta às vezes…
Não vou contar quem estava ou não na reunião e nem o que foi conversado. Alguns nomes não são segredo, além do Wellington e de mim, o Will estava por lá para fechar sua participação em Ciranda Coraci e o Senhor das Histórias. O Daniel Esteves – com quem já havia cruzado algumas vezes mas nunca havia sido formalmente apresentado – estava ali para fechar sua participação num dos álbuns. O Jozz também foi, embora só tenha saído de lá sabendo que faria um álbum para a Nemo, mas ainda sem saber que se tratava de Otelo, de Shakespeare. O Wanderson de Souza também estava lá, tão perdido quanto eu.
E eu pensando na tal da introdução…
Em um determinado momento, entretanto, depois de nos contar o que era a Nemo e qual seria seu projeto editorial, o mineiro vira pra mim e pro Wanderson e atira à queima roupa, sem qualquer chance de defesa:
- Aliás, é melhor vocês sentarem mais perto e virarem os melhores amigos, porque provavelmente
vão fazer um álbum juntos…
Eu não sei exatamente que cara eu fiz, mas deve ter sido de um pavor absoluto. Só o Wellington percebeu. Se o Will reparou, foi educado em disfarçar.
Como assim eu faria um gibi???
(continua na próxima quinta)