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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Chibata: um outro lado da questão

Hoje eu não vou falar de quadrinhos. Quer dizer, vou. Mas não diretamente.

Vou falar primeiro de teatro.

Em fevereiro de 2000, após meses de insistência, César Vieira, fundador e diretor artístico do Teatro Popular União e Olho Vivo, ao telefone, pronunciou o que minha perseverança buscava ouvir:

- Ok! Dá um pulo aqui domingo pra conhecer o grupo.

Começava ali uma experiência que mudaria o rumo da minha arte e da minha vida. Um caminho sem volta que, por mais estranho que possa parecer, me levou até esse blog nesta noite, até o gibi que estou fazendo para a Editora Nemo e que também forjou o cara que sou agora.

O Teatro Popular União e Olho Vivo (TUOV, como o chamamos) não é um grupo qualquer de teatro. É outra coisa, por vezes inclassificável, mas que gravou à força e a sangue sua marca na história do teatro nacional nos últimos 50 anos.

 

A Origem

O Teatro Popular União e Olho VivoTUOV – tem suas origens no ano de 1966, quando das primeiras reuniões objetivando as encenações de O Evangelho Segundo Zebedeu e Corinthians Meu Amor, ambas de César Vieira.

Embora ninguém soubesse à época, César Vieira era o pseudônimo de Idibal Pivetta, advogado, que passaria os vinte anos seguintes defendendo presos políticos perseguidos pelo regime militar, um dos poucos com coragem para isso naquela época.

Em 1969 estreiou, pelo Teatro Casarão, a peça Corinthians Meu Amor. O espetáculo, devido ao seu tema, extrapolou a modesta sede do teatro na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e começou, sistematicamente, a se apresentar nas várias agremiações de nome “Corinthians” que existiam na década de 60.

Em 1970, por um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, auto intitulado Teatro do Onze – uma alusão ao Grêmio Recreativo XI de Agosto, daquela instituição e ao qual era subordinado – estreiou o espetáculo O Evangelho Segundo Zebedeu, que contava a história da Guerra de Canudos através da linguagem de cordel.

O espetáculo renovou a cena teatral paulistana ao apresentar em linguagem popular um exercício metalinguístico até então pouco visto no Teatro Nacional: a peça narrava a Guerra de Canudos através de uma história que ocorria dentro de um circo e se apropriava de elementos religiosos para contar a messiânica aventura de Antonio Conselheiro; não bastasse isso a encenação ocorreu dentro de um circo de verdade, no Parque do Ibirapuera.

O sucesso foi imediato e o grupo, mesmo sendo amador, ganhou todos os prêmios nacionais naquele ano, além de representar o país no Festival de Nancy, na França.

 

Anos Difíceis

Em 1971, quando acabou a carreira dos dois espetáculos, diversos  membros do Teatro Casarão foram integrados ao Teatro do Onze.

Começaram então os ensaios para a peça Rei Momo, que contaria a história do Brasil a partir da estrutura do Carnaval e propunha a eleição direta do Rei Momo do título, através de cédulas previamente entregues ao público.

O Espetáculo estrearia no ano seguinte e, novamente, foi convidado, pelo ineditismo de sua linguagem, a representar o país em outro festival internacional, desta vez o de WROCLAV, na Polônia.

No retorno, o Teatro do Onze se desvinculou do Grêmio Recreativo e começou a percorrer os bairros periféricos de São Paulo, já com o nome Teatro União e Olho Vivo.

A ousadia não passaria despercebida pelas autoridades militares que governavam o país. Em 1974 o Teatro União e Olho Vivo, após uma apresentação num colégio da Vila Prudente, foi surpreendido por agentes militares infiltrados no público e  César Vieira – dramaturgo do grupo – ficou mais de 90 dias sob os “cuidados” do DOPS.

Apesar das ameaças constantes de novas prisões, o grupo continuou se apresentando nos bairros populares e, em 1978 estreiou a peça Bumba, Meu Queixada, contando as greves operárias ocorridas nas décadas de 50 e 60 em Contagem/MG e Perus/SP.

A feliz coincidência com o movimento operário que eclodia na mesma época no ABC paulista rendeu ao grupo alguns de seus melhores espetáculos, na sua imensa maioria encenados em sedes de sindicatos – clandestinas ou não.

No apagar das luzes do indecente regime político que vigorava no país, o Olho Vivo ainda seria protagonista de mais um incidente: teve, em 1984, a estréia de seu espetáculo Morte aos Brancos – A Lenda de Sepé Tiaraju adiada devido uma ameaça de bomba.

A denúncia anônima era clara: “vamos explodir essa merda de teatro subversivo e todos os que estiverem assistindo”.

A ameaça, depois de minuciosa investigação policial no local, se provou falsa e o espetáculo estreou no final de semana seguinte.

 

A Resistência Cultural

Com a redemocratização do país e uma guinada cada vez maior das artes em geral a um caráter quase que exclusivamente comercial, o Teatro União e Olho Vivo foi acusado por muitos de ser um grupo “ultrapassado” e representante de uma vertente teatral “em extinção”.

Apesar das críticas, o grupo continuou se apresentando nos bairros periféricos de S.Paulo e não alterou suas opções estéticas, apresentando uma opção popular de teatro, comprometida com a ética e em prol da cultura brasileira.

Entre 1991 e 1996 estreou mais dois espetáculos: Barbosinha Futebó Crubi – Uma Estória de Adonirans, contando a história do paulista Adoniran Barbosa, um dos maiores compositores nacionais, autor de Saudosa Maloca, Trem das Onze e outros imortais sucessos, e Us Juãos i os Magali, representando a tresloucada tentativa de fundação de uma república independente em São Jorge dos Ilhéus/BA, pelo gaúcho Sebastião Magali, no começo do Século XX.

 

A Descentralização da Cena Paulistana

No final dos anos 80 e começo dos 90, começaram em S.Paulo, inspiradas nas experiências do Teatro União e Olho Vivo e Teatro Vento Forte – grupo da capital paulista, liderado pelo incansável Ylo Krugli – diversas tentativas de descentralização da cultura, geralmente realizadas por jovens da periferia.

Foi então que surgiram importantes grupos, como a Brava Companhia, Teatro Pombas Urbanas – hoje uma fundação com um reconhecido trabalho social na Cidade Tiradentes, no extremo leste da Capital – e Cia S.Jorge de Variedades, entre outros.

O surgimento de tais grupos consolidou o trabalho iniciado nos idos de 1966 e criou uma importante rede de comunicação entre os coletivos paulistas na cena teatral da cidade, sobretudo na periferia, extremamente carente de iniciativas nesse sentido.

O Teatro Popular União e Olho Vivo ainda apresentou, entre os anos de 2001 e 2010, o espetáculo João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata, que narra a epopéia do marujo João Cândido Felisberto em sua luta pela abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra de 1910.

E é aí que voltamos à minha história dentro do Teatro Popular União e Olho Vivo, e onde teatro e quadrinhos se misturam.

 

João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata

Quando entrei no grupo, no início de 2000, ainda peguei a rabeira das pesquisas que resultariam no texto da peça sobre o Marinheiro que mudou a história do Brasil naquele começo de século XX.

Cheguei por lá antes da primeira cena ser escrita.

Eu era um dos poucos na época que possuíam computador em casa. Nada mais coerente portanto que eu fosse o encarregado de digitar os originais do César.

Atravessava as noites decifrando o caótico código de letras escritas com caneta de ponta porosa – a única que o César consegue usar, devido à grave artrose que tem nas duas mãos, fruto direto das torturas a que foi submetido na temporada em que passou na cadeia.

Eram vários cadernos, com xerox de matérias de jornais da época, desenhos e fotos, tudo devidamente anotado e comentado.

Entre os recortes, diversas cenas, rabiscadas, corrigidas, reescritas.

Digitei aquele texto inteiro pelo menos 03 vezes (ninguém fazia backup naquela época e os disquetes tinham o péssimo hábito de sumir do lugar onde foram guardados).

Tanto esforço me fez decorar cada uma das falas, de todas as personagens, tornando-me assim um dos profundos conhecedores daquele texto, de sua estrutura narrativa e de todas suas cenas.

O espetáculo estreiou em novembro de 2001, no Teatro Municipal de Santo André e é, sem dúvida, a mais longa e frutífera peça da história do grupo.

Percorremos diversos estados com o espetáculo. Frequentamos os principais festivais do país, entre eles o Festival Internacional do Recife e o Poá EmCena. Mas sobretudo, fizemos mais de 500 apresentações gratuitas na periferia de São Paulo.

Uma marca surpreendente.

O texto da peça foi lançado em livro pela Editora Casa Amarela, em 2003, e reeditado pela Prefeitura Municipal de Guarulhos em 2008, numa coleção que trazia também todos os outros textos do grupo.

Sobre o texto, prefiro transcrever as palavras do professor Antonio Cândido, um dos maiores nomes da Língua Portuguesa em todos os tempos e autor de Literatura e Sociedade, extraídas do prefácio da publicação de 2003:

“A escolha de César Vieira equivale a um convite para olhar a nossa história sem excluir os marginalizados pelas ideologias oficiais. Como sabemos, todas as providências foram tomadas para apagar da memória nacional a ação dos revoltosos de 1910 na Marinha de Guerra; para vilipendiar os seus participantes e tentar promover o esquecimento coletivo. Foi o que quase se conseguiu. Das franjas desse “quase” emergiram alguns homens lúcidos, como Edmar Morel, ou como o poeta surrealista francês Benjamin Péret, casado com brasileira, que esteve algum tempo no Brasil por volta de 1930, aqui militou na esquerda, aqui foi preso e viu apreendida e provavelmente destruída pela polícia a biografia que escrevera sobre João Cândido, intitulada O Almirante Negro. A eles se junta agora César Vieira, que recria a façanha de 1910 na chave da arte, jogando com a imaginação e a fantasia, que permitem realçar os traços da verdade. É o que faz essa peça por meio da música, da cor, do gesto organizado, da sátira, da indignação – dispostos em quadros sucessivos segundo um ritmo de vaivém no tempo, de maneira a modular uma espécie de grande parada histórica anticonvencional.”

E ainda a observação aguda do historiador Clóvis Moura (1925 – 2003) também autor de um dos prefácios, num de seus últimos textos publicados:

“Dizemos que é, por isso, uma obra de teatro e não da história, embora a essência dramática, lírica e política se reflita no espetáculo. Muitos dos seus personagens, assim, são recriados, muitos são criação do autor da peça para dar ritmo dramático à sua estrutura, mas todos autênticos teatralmente pela verossimilhança com a estrutura dramática da peça. Muitos personagens atuam como contraponto que ligam os diversos fatos e atos da peça numa unidade de ação contínua, como convém ao teatro. O trabalho de César Vieira e do seu grupo União e Olho Vivo é um exemplo de ação coletiva em função da conscientização social e artística do nosso povo.”

Pois foi a estrutura narrativa dessa peça e diversos personagens e situações ficcionais que surgiram também na publicação de 2008 da Editora Conrad:

Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil, de autoria de Olinto Gadelha e Hemeterio.

Sobre os autores e a Editora Conrad nada direi. Eles já foram condenados da acusação de plágio em 1ª instância e possuem meios legais para contestar a decisão judicial.

Em relação ao Teatro Popular União e Olho Vivo, posso dizer que este é apenas mais um episódio em sua história. Triste, é verdade, mas apenas mais um episódio de um história de luta, perseverança e ética.

Já de César Vieira, a única coisa que posso dizer é que ele é o homem mais talentoso, corajoso, honesto e ético que tive o privilégio de conhecer. Prestes a completar 80 anos, é um homem que ainda acredita no ser humano e numa sociedade mais justa. Não é pouca coisa.

Aos leitores que acompanharam esta postagem até o final só posso dizer obrigado. E aconselhar que antes de tomarem partido para qualquer um dos lados, leiam as duas obras e tirem suas próprias conclusões.

No final de 2010, por questões pessoais, tive que me afastar temporariamente do grupo.

Ironicamente acabei aqui, escrevendo sobre quadrinhos.

O que não muda em nada a minha opinião, claramente expressa nesta postagem.

 

Lillo Parra – Blogueiro e roteirista de quadrinhos – ou, como sou conhecido no teatro, Will Martinez – ator popular.

 

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Os Sertões e a escola de Zebedeu

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11 de Setembro de 1970, no picadeiro do Circo Irmãos Tibério, armado no Parque do Ibirapuera, centenas de pessoas acomodavam-se nas arquibancadas de madeira para assistirem o espetáculo O Evangelho Segundo Zebedeu, de César Vieira, com direção de Silney Siqueira e música de Murilo Alvarenga, levado a cabo pelo Teatro do Onze – um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

O que se viu no palco naquela noite nunca antes se havia visto no teatro brasileiro. A história da peça de passava num circo, onde seria encenado o drama de Canudos. Mas o ator principal, Bibi Gestas, não pôde se apresentar e é substituido na última hora por Vicente, artista convidado.

E Vicente não decepciona seu público. Não demora muito a começar a desobedecer as deixas do “ponto” e a mudar o texto original. A vida de Antonio Conselheiro mistura-se à de Cristo, num auto da paixão com ingredientes sertanejos. O que deveria ser apenas uma encenação sobre a Guerra de Canudos torna-se um ato político dentro daquele circo fictício sob aquela lona real do Ibirapuera.

O espetáculo O Evangelho segundo Zebedeu ganhou o Brasil e o mundo. Recebeu todos os prêmios nacionais, foi aplaudido de pé no Festival de Teatro de Nancy, na França, foi publicado em mais de 15 países e reencenado a exautão nos últimos quarenta anos.

Também chamou a atenção para aquele grupo de estudantes audaciosos, o que resultou numa perseguição política poucas vezes vista a um grupo de teatro: censura sistemática, prisão e tortura de integrantes em 1973, depredações constantes às dependências do grupo e até ameaças de bomba, já no apagar das luzes do Regime Militar.

Mas o maior legado de Zebedeu foi mostrar ao público brasileiro toda a força política da Saga de Canudos.

É bastante provável que Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa jamais tenham assistido a uma encenação do Evangelho. Entretanto seguiram por uma vereda estética bastante semelhante a de César Vieira para a confecção de Os Sertões – A Luta, adaptação em quadrinhos do clássico de Euclides da Cunha, lançada em dezembro pela Desiderata.

sertoesblog05Para horror dos puristas de plantão, os autores optaram por uma livre adaptação da última parte da obra – a Luta do subtítulo – usando-a como guia na narrativa e amparados por extensa pesquisa, inclusive de campo. Com isso, extraíram a essência do livro e o adaptaram com a liberdade peculiar das narrativas gráficas.

Tinha tudo para ser uma decisão ruim. Definitivamente não foi.

Os Sertões é um gibi histórico, uma livre adaptação de uma obra seminal em nossa literatura e um pesadelo narrativo e visual.

Para quem busca uma adaptação fiel ao livro, essa história do messiânico líder de Belo Monte é contada de forma apenas satisfatória.

E muito provavelmente os estudiosos da obra euclidiana torcerão o nariz.

Já para quem gosta de gibis e de histórias bem contadas…

Esqueçamos a boa educação ou a erudição própria dos críticos. Os Sertões é uma porrada na fuça de cabra metido a besta.

Narrativamente, o gibi trata com o respeito e rigor necessários o conteúdo e panorama históricos daquela recém criada – e por vezes amaldiçoada – República.

Por mais de uma vez as personagens situam o leitor sobre lugares, nomes e cargos dos homens do poder daquele final de século XIX. Deixa bastante clara também a intenção daquela República em relação aos fanáticos seguidores de Conselheiro e o perigo político que representavam, com aquela temerosa mania de acreditarem apenas em Deus e no destronado Imperador.

batal3pg2bxO apelo popular pela demonstração de força do Presidente Prudente de Moraes é abordado com fina ironia, assim como as desventuras do exército republicano, a quem os sertanejos de Canudos humilharam publicamente mais de uma vez.

Isso torna o gibi extremamente atrativo para o uso didático, seja para estudo histórico ou leitura complementar da obra original de Euclides da Cunha.

Mas como disse anteriormente, a opção estética utilizada pelos autores é o maior trunfo do gibi.

A solução narrativa utilizada por Carlos Ferreira para compilar as missões oficiais para desmantelamento de Canudos se tornou uma arma poderosa na arte de Rodrigo Rosa. O vai e vem temporal, contado através dos relatos de personagens dos dois lados da peleja e narrado por um inesperado Euclides da Cunha cria uma tensão crescente. E a cada momento narrativo, mais detalhes explicítos da ferocidade dos combates são mostrados.

E é nesse ponto que os autores, tal qual um Vicente de lápis e papel em mãos, começam a desobecer o “ponto”.

O gibi vai aos poucos introduzindo o horror e o pesadelo em quem o lê. Os diálogos, antes abundantes, vão dando lugar à narrativa gráfica pura e simples. A força das imagens e das situações vão se impondo de uma forma assustadoramente eficaz.

A crueldade e motivações do Exército e dos Sertanejos revelam uma guerra suja. O gibi não dá chance alguma ao leitor. O pesadelo e o desespero se instalam definitivamente e o efeito é devastador.

A sequência final possui 20 páginas antológicas e suas últimas páginas ainda guardam uma surpresa adicional aos leitores: foram preparadas intencionalmente, inclusive com tratamento gráfico distinto das demais, para despertar sensações terríveis naqueles que as lêem.

O pesadelo de Euclides da Cunha – a personagem, não o autor – já figura entre as melhores páginas de horror dos quadrinhos nacionais, lembrando os melhores momentos do gênero imortalizado por gênios como Colin ou Shimamoto. O Cristo carregado por Conselheiro e entregue ao Governo em um banquete funesto é uma das sequências mais impressionantes já vistas. É HQ de altíssima qualidade.

Não há pausa para retomada de fôlego pois, na sequência seguinte, temos Canudos incendiada. A página dupla causa exatamente a impressão que deveria: um massacre sem precedentes na história do país. E esse talvez seja o mais belo quadro da produção nacional em todo o ano de 2010.

Um gibi desses não é apenas entretenimento, é leitura obrigatória. Não importa se você o lerá com os olhos de um estudante de história ou de literatura, se apenas quer algo para ler no ônibus ou naquela viagem de férias num litoral chuvoso, Os Sertões é uma obra densa, com um ótimo roteiro e de uma beleza plástica única.

É bem possível que os estudiosos realmente torçam o nariz a essa livre adaptação, mas exatamente por se desprender do texto original e extrair o horror daquele conflito, dificilmente haverá um gibi mais fiel à obra de Euclides da Cunha do que esse Os Sertões – A Luta.

E em algum picadeiro perdido num tempo em que o Estado Brasileiro também cometia atrocidades inimagináveis, Vicente e todas as demais personagens de O Evangelho segundo  Zebedeu estão sorrindo com a audácia desses dois carinhas que resolveram fazer um gibi sobre a Terra Prometida de Belo Monte.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Lucas da Feira e os esquecidos da história

“Mas os senhores não acham que existem temas muito mais nobres que a história de um traidor da Pátria?”

A pergunta foi feita a César Vieira em 2000, por um tenente da Marinha, no Rio de Janeiro, durante as pesquisas de campo sobre João Cândido Felisberto, timoneiro que em 1910 amotinou-se com centenas de outros marujos e fizeram a Marinha – e o Brasil – dobrarem-se de joelhos aos revoltosos. Sua reinvidicação? A abolição dos castigos corporais naquela que era uma das mais poderosas forças náuticas de seu tempo. Uma Marinha que possuía os navios de guerra mais modernos do mundo mas que ainda chibateava seus praças, quase que na totalidade negros pegos à força ainda adolescentes para servirem à Pátria.

O episódio ficou conhecido como a Revolta da Chibata e é até hoje um tabú na Marinha. Mas provavelmente você nunca ouviu falar dele. Poucas linhas lhe são dedicadas nos livros escolares e João Cândido, seu líder, morreu na mais completa miséria. Só recentemente foi reconhecido como herói nacional, sob protestos do oficialato daquela Arma.

O Teatro Popular União e Olho Vivo – grupo fundado em 1966 e do qual faço parte há dez anos – sempre primou por contar a história por trás da história, onde o povo é o sujeito da ação e não mero espectador.

Aquela pergunta foi respondida com a estréia do belíssimo espetáculo João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata, em 2001, no Teatro Municipal de Santo André. O texto da peça, de autoria do próprio César, foi publicado em 2003, pela Casa Amarela.

Só contei isso porque poucos dias atrás recebi um pacote da Bahia, de um coletivo de jovens quadrinistas auto denominados Área 71. No pacote uma educada carta explicando o projeto e 03 gibis: Área 71 – uma coletânea de histórias curtas de jovens e veteranos autores baianos; Kuei e a senhora de Sárvar – um mangá sobre um planeta Terra desolado e dominado por criaturas sobrenaturais, de autoria de Marcelo Lima e Joel Santos; e Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira, de Marcos Franco, Marcelo Lima e Helcio Rogério.

E foi Lucas da Feira quem me chamou a atenção.

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O gibi conta a história de um escravo fugido transformado em bandoleiro e que atuou na região de Feira de Santana na primeira metade do século XIX. Herói do povo, assassino cruel, psicopata ou  rebelde? Ninguém sabe ao certo. Contado em córdeis, Lucas da Feira se tornou uma lenda popular.

Pela quase inexistência de dados oficiais que permitam a reconstrução de sua vida, essa figura fascinante foi retratada no gibi, misturando as poucas informações existentes com muita inventividade e competência narrativa.

Lucas da Feira é um gibi de gente grande e merece ser lido.

Marcos Franco e Marcelo Lima acerteram em cheio, tanto na contextualização histórica quanto na caracterização dos personagens. O uso de um linguajar próprio daquela região nos diálogos – que poderia se configurar num problema – foi habilmente resolvido. Menos contido do que no recente Bando de Dois, de Danilo Beyruth, os autores utilizaram-se de expressões já assimilidas Brasil afora graças às novelas televisivas e a música popular. E caso tenha alguma palavra que você não conheça não há problema: no final do gibi você encontrará um pequeno glossário. E acredite, ele será bastante útil, pois além do significado das expressões traz também referências de cidades e povoados citados no gibi.

Isso, além de ser um ótimo recurso, revela também a ambição didática da obra. Mas antes de entrar nesse ponto vamos falar um pouco da arte.

Hélcio Rogério construiu o gibi com muita propriedade. Seu traço transita entre a expressividade crua de Eduardo Risso e a clássica beleza de Mozart Couto, criando um Lucas da Feira extremamente real, onde a frieza e crueldade de suas atitudes – assim como seus valores morais – são facilmente identificadas em suas expressões. E isso não é pouca coisa – ainda mais numa obra independente. Mas Hélcio não é nenhum aventureiro, já está ralando nos quadrinhos desde o final dos 90 e sua experiência fez a diferença no bom roteiro do gibi.

Mas Lucas da Feira possui um ponto fraco. E ele reside exatamente em sua ambição didática.

Suas 48 páginas – 30 de história – são um fragmento muito curto da história de uma personagem tão interessante, o que obrigou os autores – ainda que o tenham feito com habilidade – a apressarem ainda mais a curta narrativa devido à necessidade de inclusão de dados básicos sobre a contextualização histórica, além das passagens obrigatórias no nascimento, infância e morte do protagonista.

Com isso, Lucas da Feira perde em profundidade, sobretudo política. E um personagem como esse, numa época em que o Brasil apenas engatinhava como nação, merece ser melhor dimensionado politicamente.

Numa história maior, de 80 a 100 páginas por exemplo, as informações didáticas seriam melhor incorporadas à narrativa e sobraria espaço para os autores explorarem a questão racial naquele Brasil escravocrata. Além disso, haveria a oportunidade de uma deliciosa discussão sobre quais interesses políticos permitiram que um escravo fujão causasse terror às classes dominantes durante duas décadas quase que impunemente.

Mas isso não tira o brilho de um ótimo gibi, sobre uma personagem que ainda tem muito a revelar em papéis empoeirados pelos séculos ou manuscritos mofados em algum baú dos tempos do Império. Que assim como o valente timoneiro do início dessa crônica, pode ter sido considerado um bandido simplesmente pelo fato de que sua luta não era a mesma daqueles que escreveram a história oficial.

Lucas da Feira bem pode ter sido um assassino cruel como um verdadeiro herói popular. E sua história deve ser resgatada. Nesse sentido, o gibi Lucas da Vila da Feira de Sant’Anna se configura como uma ótima e talentosa contribuição.

 

Para adquirir Lucas da Feira encaminhe um email para lucasdafeirahq@gmail.com.

Para saber mais sobre este e outros lançamentos do coletivo Área 71 acesse www.roteirizandohq.wordpress.com.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gorazde e aquilo que o mundo se recusou a ver

Em uma noite de domingo no já distante ano de 2003, voltávamos de um ensaio do Teatro União e Olho Vivo eu, minha esposa e o Wadinho. Estávamos no metrô.

gorazdeO Wadinho desceu na estação Penha, eu e minha esposa desceríamos duas estações depois. Quando chegamos ao nosso destino – a estação Guilhermina Esperança – um cara enorme, branco, de cabelo raspado e roupas no melhor estilo skinhead levantou do fundo do vagão e me acertou um jeb.

Do nada, de forma gratuita.

Provavelmente eu teria levado uma surra homérica naquela noite – o cara devia ter uns três metros de altura – se não fosse a potência da minha voz. Não faria teatro há duas décadas se não tivesse uma voz das boas.

O grito foi ouvido por toda a plataforma e assustou o brutamontes. A porta do metrô se fechou. Do lado de dentro o agressor, babando de ódio. Do lado de fora eu, com os cacos das lentes do meu óculos espalhados por todo o rosto.

Apesar da pronta ação dos seguranças do metrô, não conseguiram pegar o cara. Mas ficamos sabendo que eu não era a única vítima daquela noite. Ele já havia agredido um nordestino meia hora antes, na estação Sé, entroncamento das linhas vermelha e azul.

A informação só confirmou minha desconfiança. Havia sido agredido pelo imperdoável “crime” de estar conversando com o Wadinho. Na verdade, Oswaldo Ribeiro – ótimo ator, líder comunitário e um dos melhores caras com quem já cruzei na vida.

É claro que o brutamontes não sabia de nada disso. A única coisa que ele enxergou foi a cor da pele do Oswaldo. No distorcido mundo perfeito daquele imbecil, um branquela como eu jamais deveria conversar com um negro.

O caso não teve maiores desdobramentos e a única coisa que perdi foi o dinheiro de um óculos novo e um pouco da minha dignidade latina.

Mas milhares de outros casos de racismo acontecem todos os dias. Alguns num preconceito velado e interiorizado desde os tempos do Império. Outros necessitando apenas de um estopim, seja uma música um pouco mais alta no apartamento ao lado, seja uma partida de futebol ou ainda uma fechada no trânsito.

O preconceito existe e alimenta a violência. É só uma questão de querer enxergar.

Nas primeiras semanas após o ocorrido, senti o ódio próprio dos derrotados aliado a um sentimento de pura impotência. Depois – como de costume – resolvi apagar o episódio da minha cabeça.

joeE apagado ficou até algumas semanas atrás. Foi quando li Área de Segurança Gorazde: A Guerra na Bósnia Oriental, de Joe Sacco (Conrad, 1998).

Como disse, o preconceito alimenta a violência. E se a simples amizade entre duas pessoas de etnias diferentes é capaz de causar um ato gratuito de violência, imagine um sentimento de ódio arraigado há décadas numa nação inteira, só esperando uma chance para ser livremente exposto.

E agora imagine que essa chance, esse estopim, não seja uma  conversa entre um negro e um branco, nem uma briga de trânsito, mas sim a autorização governamental para uma limpeza étnica, onde preconceito e assasinato são as palavras de ordem.

É exatamente disso que trata Gorazde.

Gorazde era – durante a Guerra nos Balcãs – um enclave, ou seja, uma cidade Bósnia em pleno território dominado pelos Sérvios. Apesar de ser declarada como área de segurança pelas Nações Unidas, a cidade foi deixada à própria sorte durante mais de 03 anos.

Gorazde não deve ser muito diferente das pequenas cidades do interior. É bem capaz que seja ainda menor do que muitas cidadezinhas paulistas, mineiras ou gaúchas. Formada basicamente de gente pacata, onde todos se conheciam, Gorazde foi tomada de assalto pela guerra.

De maioria muçulmana, se tornou um alvo da limpeza étnica promovida pelo líder sérvio Slobodam Milosevic. E as poucas centenas de quilômetros que a separam da capital Saravejo a condenaram ao isolamento.

Sem apoio militar, contou com a força de seus moradores para resistir a um cerco tão longo.

Uma história de crianças que comiam às mesas umas das outras e, quando adultas, cometeram atrocidades inimagináveis sob a égide da irracionalidade. Um relato contundente sobre a necessidade de se levantar todas as manhãs sem saber ao certo como se chegaria ao final do dia. Um retrato de pessoas comuns, com hábitos comuns e que de uma hora para outra viram a realidade se contorcer sob seus pés.

Uma história de guerra contada de uma maneira absolutamente honesta.

Joe Sacco é um dos herdeiros dos quadrinhos underground. E soube aproveitar muito bem isso politicamente. Não se contentou em desmoralizar instituições ou costumes e sim expôs – com rara habilidade – os contrastes próprios de uma situação onde todas as leis do bom senso foram jogadas por terra. Onde uma vida humana era tão valorizada quanto um par de meias sujas.

Da impotência da ONU até os jogos políticos decidindo o destino daquela cidade, nada escapa da narrativa ferina de Sacco.

Gorazde não é um gibi de guerra onde um imponente Sargento Rock vem libertar os pobres cidadãos indefesos do julgo do opressor. Mas sim um gibi onde mães morrem protegendo filhos que morrerão logo depois, onde famílias separadas nunca mais se encontrarão.

Gorazde é um gibi de pessoas comuns chorando sobre túmulos anônimos.

Aprendi mais sobre o conflito nos Balcãs lendo Gorazde do que em todos os documentários sobre o tema. A narrativa gráfica imprimiu àquela guerra uma proximidade muito mais eficaz do que a imagem em movimento. É impossível ler o gibi e não sentir uma desoladora desesperança.

Do episódio no metrô até a sangrenta guerra existe uma distância incalculável. Mas Gorazde nos faz reflitir até que ponto pode chegar a imbecilidade e crueldade humanas quando o preconceito e o ódio são livremente incentivados.

Num país onde a segurança pública é uma piada de mau gosto, onde grassa a corrupção em todas as esferas do poder e as classes sociais menos favorecidas são cada vez mais violentadas em seus direitos civis, Gorazde é um alerta perturbador.

 

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Para saber mais: Crimes de guerra num documentário em Quadrinhos, no Mais Quadrinhos, de Wellington Srbek.