domingo, 13 de março de 2011

Mondo Urbano e o Complexo de Vira-latas

Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

Nelson Rodigues – 31/05/1958.

mondourbanocapaConcordo. Não é usual começar uma crônica sobre quadrinhos com uma crônica sobre futebol. Ainda mais citando um gênio como Nelson Rodrigues, mas é nisso que dá quando um ator se mete a besta em escrever sobre quadrinhos.

Acabei de ler Mondo Urbano, do trio gaúcho Rafael Albuquerque, Eduardo Medeiros e Mateus Santolouco.

Já sei, estou atrasado…

Na verdade, bastante atrasado.

Mondo Urbano vem sendo publicada no circuito independente desde 2008. Primeiro nas edições Power Trio, Overdose, Cabaret e Encore, e recentemente compiladas numa única edição pela Devir, após terem sido publicadas lá nos States…

Explicação razoável, afinal os autores possuem uma carreira já muito bem iniciada na terra dos super heróis. Mas ou a conta não fecha ou eu sou um asno da matemática. Ou nenhuma das duas coisas e o asno é outro…

O fantasma de Nelson Rodigues já começa a me puxar pelo pé e eu sou obrigado a mandar ele esperar mais um pouco, porque agora eu vou falar do gibi.

Cabaret_Cover_by_rafaelalbuquerqueartMondo Urbano é formidável. Um gibi inteligente, bem humorado, com uma arte pra lá de atraente e um roteiro engraçadíssimo, onde cada parte da história possui qualidade suficiente para se manter fechada em si só, mas que ao mesmo tempo amarra-se a outro capítulo, muitas vezes nos obrigando a voltar a leitura umas dezenas de páginas antes. Ou seja, a saga criada pelo trio é uma aventura de se ler.

A história conta a ascenção e derrocada de Van Hudson, um roqueiro que toca como o diabo, e de caras comuns que, de uma forma ou de outra, estão ligados à banda liderada pelo endiabrado vocalista.

E tudo gira em torno da amaldiçoada guitarra do roqueiro e de um suposto pacto com o demônio. Você já ouviu a história: venda sua alma e em troca toque como ninguém tocou em toda a criação. Daí o cara some durante um tempo e volta tocando de um jeito sensacional, faz um sucesso estrondoso e depois aparece assassinado em alguma banheira suja de um hotel barato qualquer.

É a mesma abordagem do ótimo filme “A Encruzilhada”, de 1986, com o Ralph Macchio, o eterno Karatê Kid. Que por sua vez foi inspirado nos macabros boatos que rondam a vida e morte de Robert Johnson (1911 – 1938), um dos maiores bluesman da história.

teaser_hq_webE o que sai disso é um gibi realmente original, que mistura estilos no traço e no roteiro, caminhando com bastante desenvoltura entre diversos gêneros dos quadrinhos, do terror ao policial investigativo.

Ou seja, uma ótima diversão como todos os ingredientes necessários para se tornar um sucesso de crítica e público.

E finalmente o fantasma de Nelson Rodrigues solta sua gargalhada: porque um gibi tão bom passou dois anos no circuito independente sem que nenhuma grande editora o publicasse? Porque uma editora norte americana enxergou o que nenhum editor percebeu em mais de 30 meses? E porque a publicação agora, depois de tantas críticas elogiosas a edição gringa?

Foi necessário que um nome como Stephen King, com quem Albuquerque trabalha na série American Vampire, da Vertigo, elogiasse a obra para que ela adquirisse valor suficiente para ser publicada comercialmente no país de seus criadores?

Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-latas” e a definiu da seguinte maneira: (…) a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores (…)

A crônica, publicada originalmente na revista Manchete Esportiva em maio de 58, traçava um paralelo entre a derrota da Seleção Brasileira na final da Copa de 50, em pleno Maracanã, com a insistente mania do brasileiro da época em não acreditar no talento de sua própria seleção. E ia mais longe: acreditava que o brasileiro se envergonhava de seu próprio talento e insistia num auto boicote.

Hoje, cinco vezes campeão mundial, criador de alguns dos maiores gênios que já desfilaram pelos gramados e orgulhoso de possuir em seu currículo um atleta que dificilmente será superado nos próximos séculos, nosso futebol superou sua vira-lata autodepreciação.

Nossos quadrinhos – e principalmente nossos editores – ainda não.

E o excelente gibi Mondo Urbano é a prova mais bem acabada disso.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Herói Nacional Sim Senhor!

Solar01Wellington Srbek comemora em 2011 seus 25 anos de carreira. Não, você não entendeu errado, o jovem roteirista mineiro está comemorando 1/4 de século envolvido com gibis.

Nem todos esses anos ele esteve no mercado profissional. Seus 25 anos contam a partir da confecção de sua 1ª história, ainda guri.

Mas no final das contas, é exatamente a partir dali que o tempo deve contar. Ninguém se faz roteirista de quadrinhos da noite para o dia. O processo é muito maior do que uma simples decisão profissional.

É um processo que envolve paixão, erros, acertos, decepções e uma carga muito grande (mas muito grande mesmo) de trabalho – em quadrinhos ou não.

De sua 1ª história para sua estréia profissional passaram-se 10 anos. E sua estréia, como a da grande maioria dos roteiristas brasileiros, aconteceu no circuito independente.

Em março de 1996 era publicada a revista Solar. O personagem título tinha cheiro, cor e forma de super herói. Mas já naquela época Srbek mostrava seu talento narrativo. Misturando de forma consistente folclore, mitologia e ação, Solar possui uma qualidade ímpar para uma revista de estréia, fugindo dos estereótipos tão comuns ao gênero, e abriu caminho para o jovem mineiro que queria escrever quadrinhos.

Reformulado em 2009, o personagem – nas mãos de um já tarimbado roteirista, autor de Estórias Gerais, um dos clássicos de nossos quadrinhos em parceria com o Mestre Colin – Solar ganhou uma nova origem, numa série composta de 03 volumes (o último ainda inédito).

Inexplicavelmente, mesmo após Srbek ter colecionado uma série de prêmios e o respeito de toda a classe, nenhuma editora se interessou em publicar esse instigante super herói nacional, com poderes xamanísticos e origem mitológica.

Para a nossa sorte, Srbek está comemorando seus 25 anos nos Solar_Renascimentoquadrinhos e 15 de carreira profissional disponibilizando gratuitamente em pdf a versão original de Solar.

É uma ótima oportunidade para quem ainda não conhece o personagem ou só conhece sua nova versão.

E para os apaixonados por quadrinhos, é a chance de conferir o início de carreira de um dos mais talentosos roteiristas da atualidade.

Para baixar a versão em pdf: http://www.maisquadrinhos.com.br/extras/hqs_virtuais/solar.pdf

Para saber mais sobre SOLAR: http://maisquadrinhos.blogspot.com/search/label/Solar

Para conhecer a obra de Srbek, baixar outras revistas digitais ou comprar as edições de Solar:

http://maisquadrinhos.blogspot.com

http://www.maisquadrinhos.com.br/

http://wellingtonsrbek.blogspot.com/

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ordinárias Cenas da Vida

ordinarioViver numa metrópole é apavorante. Gente demais, trânsito demais, violência demais. E se você morar em uma metrópole como São Paulo, some-se a isso descaso e indiferença.

Mas São Paulo – ou qualquer outra cidade grande – possui um universo próprio. Trágico e desolador, mas também belo e poético. Esse universo passa despercebido à maioria das pessoas, mais preocupadas em entrar no metrô, em pegar o ônibus, em arrumar um emprego ou em pagar as contas.

Mas ele está lá. Basta olhar pro lado certo.

E poucas pessoas conseguem olhar para o lado certo. Machado de Assis soube em sua época, Nelson Rodrigues entendeu como poucos como a sociedade carioca funcionava e expôs todas as suas chagas. Em São Paulo, Plínio Marcos retratou a desgraça paulistana com uma precisão impressionante. Dalton Trevisan não fica atrás.

Aparentemente, para se enxergar esse universo obscuro é necessário ter uma boa dose de lucidez sem deixar de ter a medida exata da loucura.

E Rafael Sica é um desses caras. Ele olha para o lado certo da sociedade. E o que é melhor: resolveu partilhar isso conosco, que não enxergamos um palmo a frente do nariz.

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Ordinário é uma coletânea de tiras de mesmo nome que o autor mantém em seu site e que agora é publicado pela Quadrinhos na Cia.

Se você gosta daqueles quadrinhos rasteiros com os caras de capa, onde invariavelmente alguém troca sopapos com outro alguém e no processo detonam metade de Nova York, pare de ler essa resenha e se afaste de qualquer livraria com o gibi do Sica.

Mas se você gosta de quadrinhos e não só das gostosas de colant que aparecem por lá, compre imediatamente o gibi. Ou então vá ao site de Sica.

Mas já alerto: Ordinário não é um gibi fácil.

Mas é um gibi raro.

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Alguns dizem que Sica é um gênio, outros não chegam nem perto do que ele produz, outro tanto simplesmente confessa que não entende o que ele faz.

Talvez todos estejam certos, talvez não, mas a verdade é que Ordinário é um gibi perturbador. A visão de Sica sobre o ser humano mostra o que temos de melhor, mostrando o que temos de pior.

Ambíguo, desolador, assustadoramente real, Ordinário retrata cenas que poderiam ocorrer aqui em Itaquera, na periferia, ou lá no Centro Velho, em plena Praça da Sé. Do bêbado solitário a família falsamente feliz, do menino cruel ao velho babão, nada escapa ao olhar atento e ácido de Sica.

Seu modo de enxergar o mundo e a forma como resolveu partilhar essa visão impressionam pela crueza e inteligência. Nesse universo agora escancarado, a vida parece um beco sem saída, onde um copo ou um cigarro parecem ser a solução óbvia.

No mundo de Ordinário a esperança é a última que morre, mas morre.

E ninguém comparece no velório…

Desgraças à parte, o lançamento da Quadrinhos na Cia só corrobora o talento de um artista único, incomum, que em menos de uma década já encontrou seu estilo e tem pela frente toda uma carreira de erros e acertos mas que, sem dúvida alguma, será uma carreira singular, que atrairá uma legião de fãs, será tema de trabalhos acadêmicos e influenciará muita gente.

Viver numa grande cidade não é tarefa fácil. Ao escancarar sua janela, Sica e seu Ordinário acabaram de deixar essa tarefa um pouco mais difícil. Deliciosamente mais difícil…

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QaQ2Essa resenha também está disponível no Quadro a Quadro, novo site de notícias sobre quadrinhos. Não deixem de acessar.